Missão Urbana

União Central Brasileira

Uma nova visão sobre ministérios em universidades seculares

Gerald Connell

Um dos desafios enfrentados por nossa igreja é a necessidade de desenvolver programas de evangelismo que sejam efetivos nos campus seculares, a fim de satisfazer as necessidades intelectuais e espirituais de cerca de 40.000 adventistas do sétimo dia que estudam em faculdades e universidades públicas em todo o mundo.

Muitos estudantes adventistas terminam sua experiência universitária com sua fé cristã fortalecida. Eles se especializam numa profissão e tornam-se líderes na comunidade, no país e na igreja. Outros jovens adventistas, entretanto, deixam a igreja quando atingem o nível universitário. Isso representa uma grande perda no potencial de liderança, uma perda de influência nos círculos profissionais, e uma perda para os recursos financeiros da igreja.

Infelizmente alguns pastores adventistas sentem-se intimidados pelas faculdades e universidades seculares. Eles pensam que não podem ter nenhum impacto num campus secular. Contudo, o mandato que nos foi confiado é de “ir ao mundo inteiro”, e isso inclui o mundo acadêmico. Para abordar com confiança um campus qualquer, temos que compreender muitas correntes teológicas e filosóficas. Primeiro, analisamos o contexto no qual a universidade secular se desenvolveu, e então propomos maneiras pelas quais os capelães, pastores e estudantes adventistas podem trabalhar de uma forma construtiva dentro de um campus secular.

Mudando Mundivisões

A era pós-industrial e pós-moderna da informática trouxe uma revolução tão rápida na tecnologia que modificou cada faceta de nosso viver, mudando radicalmente as nossas perspectivas. Contudo, até o desenvolvimento da sociedade urbana moderna, as mudanças sociais eram vagarosas. As roupas que você vestia, o lugar que morava, sua situação financeira, sua decisão de ter ou não ter filhos eram todas decisões “ordenadas por Deus”. Você vivia e morria sem ter muitas escolhas. A maioria dos detalhes da vida eram confortavelmente pré-estabelecidos.

Neste tipo de sociedade, a religião tinha um papel preponderante na estrutura básica social. Ela era a única fonte de “conhecimento e cura”.1 O clero, aqueles que adquiriram conhecimento sobre pessoas que estavam em contato com o “poder sagrado”, que controlava a vida e o destino.

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia solapou as estruturas tradicionais e as bases da sociedade humana. Áreas da vida que antes eram vistas como envolvidas em mistério, podiam agora ser explicadas e controladas através da ciência e da tecnologia. Na mente de muitos, a mundivisão religiosa não é mais digna de confiança. Ela foi substituída pela mundivisão secular, na qual a crença em Deus não tem lugar.

Filosoficamente falando, a universidade secular de hoje funciona baseada na pressuposição de que Deus não existe. Tudo o que existe agora apareceu como resultado de algum fenômeno natural precedente. A evolução natural é a “interpretação dominante dos mecanismos do universo físico”.2 Se Deus não é visto mais como um fator essencial no universo físico, então não mais existe divino mandato ou objetivo supremo para a humanidade. A vida é um “mar desconhecido, onde cada pessoa tem que preparar seu próprio mapa”. 3 Isso conduz ao relativismo. Em outras palavras, “o que parece certo para você, isso é o certo”. 4 Princípios éticos ficam ao critério de cada um. A filosofia moderna afirma que o que era “bom e certo para um grupo de pessoas num determinado momento da história e do tempo, não o é para um que vive em outro lugar e em outra época”.5

Sendo que a religião foi destronada, alguma outra coisa tem que preencher esse vácuo e tomar o controle da vida humana e de seu destino. Em grande medida, as universidades são responsáveis por esse processo, pois que educam aqueles que ocuparão posições de destaque e que vão formular as regras do jogo para a economia, a sociedade e a política. Cientes disso, como podemos nos relacionar com as faculdades e universidades seculares?

Demoremo-nos primeiramente sobre duas questões básicas: como é que Deus trabalha? Por que meios Ele age na “Cidadela do Conhecimento”?

As respostas a estas perguntas e a compreensão do que isso representa vão determinar nossa estratégia, nossas atitudes e os métodos que temos que desenvolver para testemunhas num campus secular.

Duas estratégias para o Ministério no Campus

Há duas estratégias básicas para se evangelizar um campus. Uma enfatiza a teologia da presença, e a outra a teologia do evangelismo.

A maioria das grandes denominações religiosas segue a primeira linha. Eles crêem que sua missão consiste em tornar conhecida a posição histórica da igreja. Se um estudante que saber alguma coisa sobre o Deus dos cristãos, que ele venha ter com o capelão em seu escritório.

Essas denominações populares também mantêm igrejas, dentro ou perto do campus. Seu ministério consiste em cultos e programas religiosos. Freqüentemente elas estão envolvidas em assuntos sociais. Algumas delas oferecem um culto para grupos especiais; outras mantêm “cantinas” onde estudantes se reúnem uma ou duas vezes por semana para tomar uma refeição. Ocasionalmente um dos capelães participa de algum comitê universitário.

Os que praticam a teologia da presença vêem a universidade, apesar de suas contradições, como habitada por anjos e demônios. Essas grandes denominações crêem que deus já está agindo no campus e presumem que os estudantes virão procurá-las.

A teologia do evangelismo, por outro lado, é posta em prática por muitas organizações independentes tais como Campus Crusade, His House, The Navigators e InterVarsity. Esses grupos vêem a universidade como uma instituição decaída, e colocam ênfase no conflito entre as pressuposições filosóficas do currículo universitário e os ensinamentos das Escrituras. Eles afirmam que os cursos universitários ensinam o ateísmo, o humanismo e/ou o marxismo. Com gráficos e dados estatísticos, eles ilustram problemas tais como o uso de droga, de álcool e do sexo antes ou fora do casamento. Eles mostram também que quando jovens passam por esse processo acadêmico, o resultado é um desastre moral e espiritual.

Essas organizações evangélicas independentes vêem seu ministério no campus como um chamado para “salvar os jovens da serpente”. Eles trabalham ativamente visitando os dormitórios, organizando estudos bíblicos, mostrando filmes cristãos, e encorajando debates, tudo isso como parte da evangelização do campus.

Uma teologia Adventista para Evangelizar um Campus

Qual é a posição dos Adventistas do Sétimo Dia? Após oito anos de experiência no ministério de um campus secular e depois de ter lido bastante sobre esse assunto, creio que, para sermos fiéis às Escrituras, temos que nos inspirar nos dois pólos. Baseados na esfera de nossa teologia, temos a habilidade de combinar a teologia da presença e a teologia do evangelismo. Temos que reconhecer, baseados nas Escrituras, que Deus tem tanto a mão “esquerda” quanto a “direita”.6

A mão “esquerda” de Deus tem sido ativa nas universidades muito antes que nós chegássemos lá. Através do Velho e do Novo Testamento nós vemos que muitas vezes Deus usa poderes seculares para cumprir seus propósitos. Ele trabalhou através de pessoas como o Faraó do Egito, o rei Artaxerxes, o rei Nabucodonozor, Herodes e Pilatos. Em João 19:10 Pilatos disse a Jesus: “Não me falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar?” Ao que Jesus replicou no verso 11, “Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado.”

Com esse pensamento em mente, a universidade torna-se muito menos grandiosa. Quando visitamos campi seculares, nosso ministério utiliza as avenidas da cooperação. Nós estamos lá para trabalhar em favor da universidade bem como com a universidade, e não simplesmente para “salvar os jovens da serpente”.

Em geral, quando a administração da universidade constata que as organizações religiosas estão trabalhando para satisfazer as necessidades dos estudantes, ela responde positivamente porque a universidade não é capaz, por si só, de fazê-lo. Ela não tem a possibilidade de ajudar alguns estudantes a lidarem com assuntos pessoais que representam valores importantes para eles. Em tempos de crise, nem sempre os estudantes têm acesso a pastores. Isso pode mudar quando as organizações ministeriais do campus puderem trabalhar aliadas aos centros de aconselhamento dento da universidade.

Por outro lado, a universidade não quer ouvir muitas vozes se gladiando. Nós temos todo interesse em cooperar com outros grupos cristãos. Quando as organizações ministeriais do campus trabalham juntas como uma voz coletiva, elas podem ter um impacto tremendo.

A voz coletiva dos profissionais ministeriais do campus pode ter também um impacto em outras áreas da vida universitária, incluindo o conteúdo do currículo. Afinal de contas, muitos desses estudantes universitários são nossos estudantes. Uma delegação composta das grandes denominações de igrejas evangélicas e de organizações independentes pode representar coletivamente milhares de estudantes. Essa é uma maneira de influenciar os comitês e de ajudar a formular os regulamentos universitários que afetam diretamente alguns estudantes.

Naturalmente, se um grupo ministerial deseja impacto, ele deve primeiro contatar os responsáveis da universidade através dos canais competentes, e fazê-lo como uma organização profissional. Nós

teremos então a possibilidade de ajudar uma instituição que modela nossa cultura e influencia a vida de milhares de pessoas.

A Mão Direita de Deus

Deus também está interessado na propagação do evangelho dentro do campus. A filosofia, as ciências naturais, as ciências sociais e outras disciplinas têm seu lugar, mas elas nunca vão satisfazer os anelos do coração humano como o faz o evangelho. Nossa vida moderna, com sofisticada tecnologia, tem deixado muitos estudantes insatisfeitos, sem ilusão – alienados. Como pastores e capelães Adventistas do Sétimo Dia, nós devemos ir às universidades e dar estudos bíblicos, encorajar nossos estudantes e ensiná-los como partilhar sua fé. O evangelismo pode tomar muitas formas, incluindo peças, programas musicais, filmes construtivos, palestras por convidados especiais, e tantas outras programações às quais os estudantes podem trazer seus amigos.

As igrejas localizadas em volta de um campus podem fazer questionários para descobrir as expectativas que os estudantes têm da igreja. Esses questionários produzirão inúmeras possibilidades de evangelismo. Por exemplo, você pode mostrar aos estudantes adventistas como construir amizade cristã com os não-adventistas ou com pessoas que não freqüentam nenhuma igreja. Planeje reuniões na sexta-feira à noite e/ou no sábado à tarde. Organize grupos de estudos bíblicos. Faça uma festa para seus estudantes. Se a congregação não programa momentos de recreação para os estudantes, eles a procurarão em outros lugares a fim de preencher suas necessidades sociais.

Uma das coisas mais importantes que uma igreja pode fazer para guardar os estudantes e atrair novos conversos é providenciar cultos que se adaptem às necessidades dos estudantes. Se o serviço do culto está morto, se a Escola Sabatina não traz respostas aos problemas do estudante, se não se permite que eles tomem parte na liderança da igreja, então eles vão “votar com seus pés”. Eles deixarão de vir.

As Funções da Universidade

Um outro aspecto importante do ministério num campus secular é nossa compreensão do relacionamento entre a igreja e a universidade. Alguns pastores pensam que a igreja e a universidade não têm nada em comum. Mas se a igreja olhar por cima das diferenças filosóficas e utilizar os recursos que a universidade tem para oferecer, ela pode beneficiar-se grandemente.

Martin Marty, um professor cristão da Universidade de Chicago e crítico da cultura, após cuidadosa análise chegou à conclusão que a universidade tem quatro funções básicas: (1) a transmissão da cultura, (2) a transmissão do conhecimento, (3) o treinamento de professores, e (4) a pesquisa científica.7

Se analisarmos rapidamente estas funções, veremos que a universidade e a igreja têm muito em comum:

Transmissão da Cultura: Como igreja, deveríamos ter um interesse profundo naquilo que está sendo ensinado não somente a nossos membros mas a todos os estudantes universitários. A universidade nem sempre está inteirada das ramificações culturais que ela produz. Embora seus

ideais sejam nobres, ela nem sempre os vive. Por essa razão, a igreja tem a oportunidade e a responsabilidade de criticar a universidade com amor e erudição. Em tais situações, a igreja pode falar com uma voz profética.

Transmissão de Conhecimento: Como Adventistas do Sétimo Dia, precisamos aceitar o fato de que não temos “todo o conhecimento”. A igreja tem um “conhecimento essencial” – a mensagem bíblica da salvação através de Jesus Cristo, o estilo de vida cristão e suas ramificações sociais. Fora do “conhecimento essencial” jaz uma quantidade incrível de informação útil. Assim como a universidade precisa da igreja para poder viver seus ideais, a igreja precisa da informação da universidade para continuar na vanguarda. Por exemplo, a igreja usa equipamentos de alta tecnologia em seus múltiplos meios de comunicação. Ela também usa a ciência demográfica para espalhar a mensagem do evangelho mais rapidamente. Usando esses instrumentos que foram desenvolvidos nas universidades públicas, a igreja se beneficia do desenvolvimento e da transmissão do conhecimento.

Treinamento de Professores: Como denominação, estamos profundamente convencidos e comprometidos com a educação superior. Muitos professores adventistas que ensinam em nossas faculdades e universidades foram educados em universidades públicas e trouxeram suas especialidades para nossas instituições, realçando o valor de nossos programas acadêmicos. Outros professores adventistas ensinam em faculdades e universidades estaduais, atuando como agentes de Deus. Alguns estão prestando uma grande contribuição em suas áreas específicas.

Pesquisa Científica: Os membros da “Cidadela da Fé” nunca deveriam sentir-se ameaçados pela ciência. Os estudos científicos, se abordado sob uma perspectiva correta, fortalecesse nossa fé ao vermos a maneira complexa e maravilhosa pela qual Deus criou nosso universo físico. A igreja também tira proveito das descobertas científicas e sua aplicação tecnológica no campo da saúde.

CONCLUSÃO

Ao desenvolvermos a teologia e a filosofia do ministério no campus, chegamos à conclusão que Deus já estava trabalhando lá antes de nós. Nossos estudantes precisam de nosso apoio, carinho e equilíbrio ao desbravarem seus caminhos na selva dos programas acadêmicos. Reconhecemos que devemos ser o sal e a luz da comunidade acadêmica, e o nosso papel consiste também em “salvar os jovens da serpente”. Ao influenciar a universidade, nós podemos influenciar a cultura. Por nossa vez, também precisamos da universidade e tiramos proveito dela. O ministério adventista no campus está saindo do estado embrionário. Contemplamos seu futuro com otimismo porque seu potencial, com as bênçãos de Deus, é ilimitado.

NOTAS

  1. Langdon Gilkey, Society and the Sacred (New York: Crossroads, 1981), p. 80.
  2. Anthony Campolo, A Reasonable Faith (Waco, TX: Word Books, 1983), p. 43
  3. Ibidem, p. 44
  4. Ibidem, p. 44
  5. Ibidem, p. 45
  6. Phil Schroeder, “Ministry on Academic Turf: A Lutheran View”, Na Invitation to Dialogue: The Theology of College Chaplaincy and Campus Ministry (New York: national Council of Churches, Education and Society,

    1986), p. 7.

  7. Ibidem, p. 10