Missão Urbana

União Central Brasileira

Qual o Propósito da Vida?


Por Emilio Abdala

Vi certa vez, numa loja de animais de estimação de um shopping center, um ratinho que corria numa roda giratória de maneira frenética. Assim, ele passava o dia em movimento contínuo, mas aparentemente sem um senso de direção, ou uma razão lógica para tanta atividade senão a atividade em si. Uma reflexão sobre a nossa vida poderia levantar questões vitais sobre a nossa existência. Quem somos nós? Qual é o sentido da vida? Existe uma causa legítima e relevante pela qual viver?

Em cada coração humano, existe uma necessidade de ser parte de algo maior do que as realizações terrenas.[1] O psicólogo James Jauncey concorda com esta afirmação ao dizer que: “todos precisamos dedicar a vida a uma causa ou a um movimento.” [2] De fato, sempre houve causas e lutas visando à mudança das estruturas da sociedade. Movimento pelos direitos civis, pelos estatutos da criança, pela abolição da pena de morte em certos países, pela democratização das universidades, pela eliminação de doenças como o pólio, e agora, pela preservação do meio ambiente. Muitas pessoas se unem pelo simples gesto de estar envolvidos em uma luta por algo. E, quando estas causas perdem o ímpeto, eles rapidamente mudam para outra causa qualquer.

Em seu clássico Man’s Search for Meaning (A Busca do Homem pelo Significado), o psiquiatra Viktor E. Frankl observa que as pessoas que sobreviveram aos campos de concentração nazistas, geralmente possuíam um motivo externo, um significado para a sua existência individual.[3] Ele mesmo, um sobrevivente de Auschwitz, cita casos de prisioneiros que resistiram às atrocidades por causa de alguém que o aguardava em um país estrangeiro ou de metas que desejavam realizar no futuro. Ele sugere que cada indivíduo precisa encontrar uma vocação específica ou uma missão, uma tarefa absorvente que transmita realização pessoal. O tédio é o primeiro sintoma de uma vida carente de significado. Frankl afirma que “mais e mais pacientes com mais e mais tempo livre, estão procurando psiquiatras, reclamando de tédio.” [4]

O que a Bíblia diz sobre o desígnio especial de Deus para você? Segundo as Escrituras, nós também refletimos um propósito específico de Deus. Genesis 1:27 registra a criação do homem à imagem e semelhança de Deus. Ele colocou o homem no jardim do Éden para “o cultivar e guardar” (2:15). Havia para Adão um sentido claro de significado e propósito para a sua existência. Em várias passagens do Velho Testamento, Deus é apresentado como o Oleiro e as pessoas como vasos de barro que Ele molda e dá contorno (Jó 10:8-9; Sl 119:73; Is 29:16; 64:8). Esse desígnio relaciona-se tanto com o aspecto material quanto espiritual (Sl 139:13-16).

O propósito criativo de Deus também se reflete em nossos dons, talentos e habilidades. No processo de construção do tabernáculo, o Senhor apontou certos artesãos, Bezalel e Oaliabe, para se envolverem em suas respectivas áreas de especialidades: “trabalhos em ouro, prata e bronze; lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para toda sorte de lavores” (Ex 31:1-5). O verso três diz que Deus encheu Bezalel com o Espírito e lhe deu “habilidade, inteligência e conhecimento em todo artifício.” (ver também Ex 28:3; 35:30-36:1).

Outras passagens paralelas nos evangelhos e nas epístolas sugerem o propósito único de Deus para o Seu povo. Compare Jeremias 1:4-5 com o que é dito de João Batista (Lc 1:13-17), o Messias (Is 49:1-6) e Paulo (Gl 1:15-16). O mesmo pode ser dito a respeito de cada um de nós. Deus sabe tudo a nosso respeito e, se O permitirmos, Ele cumprirá o Seu plano a nosso respeito.

No Novo Testamento, a teologia do desígnio é comunicada no conceito de corpo de Cristo e na parábola dos talentos:

a. Conceito de corpo: Em 1 Coríntios 12:12-27 e Romanos 12:4-5, Paulo estabelece uma analogia entre a igreja, o corpo de Cristo e o corpo humano. Os dons espirituais no corpo da igreja refletem o princípio do propósito especial (1 Co 12:1-11, 28-31). Primeiro, Deus nos fez como somos: Ele é o Oleiro, o Arquiteto Mestre; segundo, Ele nos fez diferentes: mão, olho, ouvido (1 Co 12:14-17); terceiro, Ele nos fez individualmente necessários ao corpo (1 Co 12:14-17). Descobrir o plano especial de Deus para a nossa vida é a chave para implementar Efésios 4:11-12 na igreja.

b. Parábola dos Talentos: Outra passagem no Novo Testamento que demonstra a intenção de Deus para a nossa vida é demonstrada na Parábola dos talentos em Mateus 24:14-30. Enquanto a parábola das virgens enfatiza o preparo pessoal para o retorno de Cristo, a parábola dos talentos ilustra nossa responsabilidade de trabalhar pela salvação de outros (SDABC, 5:509). Primeiro, “os dons especiais do Espírito não são os únicos talentos representados na parábola. Esta inclui todos os dons e dotes, originais ou adquiridos, naturais ou espirituais” (Mt 25:15; PJ, 328); segundo, “Deus deu a cada um “segundo a sua capacidade” (Mat. 25:15). Os talentos não são distribuídos a esmo. Quem tem capacidade para usar cinco talentos recebe cinco” (Ibid.); terceiro, cada um tem uma responsabilidade, ninguém está isento de responsabilidades. “A questão que mais nos interessa não é: Quanto recebi? mas: O que faço com o que tenho?” (PJ 329); quarto, a aprovação do Mestre não é proporcional à quantidade de lucro obtido, mas à fidelidade demonstrada (Mt 25:21); e quinto, “muitos a quem Deus capacitou para fazer trabalho excelente, pouco conseguem, porque pouco empreendem” (PJ 331; Mt 25:26).

O que Ellen White diz sobre o desígnio especial de Deus para você?

A cada nação, a cada indivíduo de hoje, tem Deus designado um lugar no Seu grande plano. Homens e nações estão sendo hoje medidos pelo prumo que se acha na mão dAquele que não comete erro. Todos estão pela sua própria escolha decidindo o seu destino, e Deus está governando acima de tudo para o cumprimento de Seu propósito.[5].

A cada pessoa designou Deus um lugar em Seu grande plano. Pela verdade ou falsidade, pela loucura ou sabedoria, cada um cumpre um propósito, produzindo certos resultados. E cada um, de acordo com sua escolha da obediência ou desobediência, está decidindo seu próprio destino eterno. A cada um é dada liberdade para agir, e sobre cada um repousa a responsabilidade por seus próprios atos.[6]

O Senhor nos conhece, a cada um individualmente. A toda criatura que vem ao mundo é dada sua obra, com o fim de tornar melhor o mundo. … Cada qual tem sua esfera, e se o instrumento humano fizer de Deus seu conselheiro, então não haverá trabalho contrário aos propósitos divinos. Determina Ele a cada qual um lugar e uma obra, e se individualmente nos submetermos ao conselho do Senhor, por confusa e emaranhada que a vida possa parecer aos nossos olhos, Deus em tudo tem um propósito, e a maquinaria humana, dócil à guia da sábia mão divina, realizará os propósitos de Deus. Como num exército bem disciplinado cada soldado tem seu lugar determinado e dele se requer que desempenhe sua parte em contribuir para o poderio e perfeição do todo, assim o obreiro de Deus tem de fazer a parte que lhe é determinada, na grande causa de Deus. A vida como se apresenta hoje não é o que Deus designava que fosse, e por isso é que existe tanta coisa que causa perplexidade; há muito atrito, muito desgaste. O homem ou a mulher que abandona o lugar que Deus lhe confiou, a fim de agradar à inclinação e agir de acordo com o seu próprio plano, encontrará decepção, porque escolheu o próprio caminho em vez do de Deus.[7] 2

Para que propósito estais vivendo? Que bem estais realizando? Podeis dar-vos ao luxo de viver para vós mesmos? Podeis conquistar a vida eterna enquanto viverdes assim? Não tem Deus um lugar e uma obra para vós? Não existe outra coisa para fazerdes a não ser tão-somente agradar e glorificar o eu?[8]

 

O corpo de David Livingstone foi sepultado na Abadia de Westminster em Londres, próximo de onde ele nasceu, mas o seu coração foi sepultado na África, local que ele amou e gastou sua vida em serviço pela salvação do povo. Aos pés de uma grande árvore, em uma pequena vila africana, os nativos abriram um buraco e ali sepultaram o coração deste homem a quem amavam e respeitavam. Se o seu coração tivesse de ser sepultado no local que você mais amou durante a sua vida, onde seria? Seria em sua casa de praia, no escritório onde você passou grande parte de seu tempo ou em meio ao povo que você amou e viveu para ajudar?


[1] Ron Hutchcraft. Called to Greatness (Chicago: Moody Press, 2001), 12.

[2] James H. Jaunsey. Psychology for Successful Evangelism (Chicago: Moody Press, 1972), 45.

[3] Viktor E. Frankl. Man’s Search for Meaning (New York, NY: Simon & Schuster, 1984)

[4] Ibid.

[5] Ellen G. White, Educacão, p.178

[6] Idem, Cristo Triunfante: Meditacões Matinais (Tatuí, SP: Csa Publicadora Brasileira, 2002), p.179.

[7] Ellen G. White. Lugares Celestiais: Meditacões Matinais (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), p.116.

[8] Idem. Medicina e Salvacão (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1991), p. 133.