Missão Urbana

União Central Brasileira

O Movimento de Plantio de Igrejas

Emilio Abdala

No filme “A Corrente do Bem” cujo título em inglês é Pay It Forward (Passe Adiante), um professor de Estudos Sociais faz um desafio aos seus alunos em uma de suas aulas: que eles criem algo que possa mudar o mundo. Trevor McKinney (Haley Joel Osment), um de seus alunos, incentivado pelo desafio do professor, cria um novo jogo chamado “a corrente do bem”, em que a cada favor que alguém recebesse, deveria retribuir a três outras pessoas. Surpreendentemente, a ideia funciona, ativando um movimento multiplicador de mudanças que leva várias pessoas a encontrar um novo sentido em sua vida.

Desde o dia em que Deus disse a Adão e Eva “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra,” a multiplicação tem sido o segredo do crescimento da raça humana, até chegar a uma proporção de explosão populacional. Tudo que é vivo e saudável deveria se multiplicar: animais, plantas e pessoas. Este princípio também tem sido o segredo do crescimento de uma “corrente do bem” através da expansão do reino de Deus. O melhor exemplo desse princípio é o ministério de Jesus: em primeiro lugar, Ele investiu a Sua vida nos Seus doze discípulos, que, por sua vez, receberam a missão de fazer discípulos de mais pessoas, que também fariam novos discípulos (Mt 28:19-20). A grande comissão é nada mais do que um chamado à multiplicação contínua. [1] A igreja deveria ir a muitas nações ou grupos de pessoas para “passar adiante” a sua fé (At 1:8). E a melhor maneira de fazê-lo era plantando igrejas nativas onde as pessoas pudessem ser instruídas, batizadas e continuamente discipuladas na Palavra de Deus.

Começando com a grande dispersão dos crentes em Jerusalém (At 8:1), o Novo Testamento registra várias histórias dos crentes indo a todos os lugares para multiplicar igrejas (At 9:31). E a Bíblia é muito clara ao dizer que, naqueles dias, a Igreja apostólica se reunia e se multiplicava nos lares (Cl 4:15; Rm 16:5; Fm 1). Não por acaso, Lucas usa a expressão “assolava a igreja, entrando nas casas” para descrever o ambiente onde Saulo realizava sua perseguição (At 8:3). Da mesma forma, no registro de suas três viagens missionárias, Paulo multiplicava discípulos e igrejas por onde quer que fosse (At 14:21-23). Ele também era consciente da prioridade de investir tempo para multiplicar líderes, que por sua vez deveriam fazer outros líderes (2 Tm 2:2). A estratégia de priorizar a multiplicação de líderes e igrejas, ao invés de apenas fazer conversos, revolucionou a cidade de Éfeso de tal maneira, que “todos os habitantes da Ásia ouviram a Palavra” (At 19:10).

Como Christian Schwarz indicou em sua pesquisa, as igrejas precisam ter uma compreensão mais ampla do crescimento do reino de Deus. Para isto, ele sugere seis princípios de desenvolvimento natural, dos quais a multiplicação é um deles:

“O princípio da multiplicação influencia todas as áreas da vida da igreja. Assim como o verdadeiro fruto da macieira não é uma maçã e sim uma nova macieira, assim o verdadeiro fruto de um pequeno grupo não é mais um cristão, mas sim mais um pequeno grupo; o verdadeiro fruto de uma igreja não são novos grupos, mas novas igrejas; o verdadeiro fruto de um líder não são seguidores, mas novos líderes; o verdadeiro fruto de um evangelista não são convertidos, mas sim mais evangelistas. Sempre que esse princípio é compreendido, os resultados são imensos.”[2]

Alguém observou que “nós não precisamos de um ovo de ouro; precisamos de um ganso que põe ovos de ouro.”[3] Esse princípio da multiplicação é exemplificado na experiência de dois contemporâneos, George Whitefield e John Wesley, proporcionando um evidente contraste entre a eficácia da liderança apostólica que inicia métodos multiplicadores e a daqueles que não o fazem. Esses dois homens foram usados por Deus para produzir um reavivamento que envolveu dois continentes no século XIX. Ambos eram intelectualmente e espiritualmente capacitados e sensíveis às diferenças culturais. No entanto, quando comparamos os frutos do ministério no final de suas vidas, percebe-se uma diferença radical. Whitefield, considerado o príncipe dos pregadores, pregou a milhares de pessoas. Mas o seu impacto sobre o crescimento de igreja foi insignificante, porque ele não se preocupou em fazer discípulos e multiplicar líderes e grupos. John Wesley (1703-1791) foi usado por Deus para converter milhares de novos membros. Mas não havia líderes suficientes para supervisionar esse crescimento. Assim, acatando a sugestão de sua mãe, Wesley desenvolveu um sistema multiplicador que ajudasse os novos membros a se desenvolverem para ocupar as posições de liderança no movimento, enquanto eles mesmos estavam fazendo e multiplicando discípulos e novas igrejas.[4]

Muitos dos antigos pioneiros da Igreja Adventista do Sétimo Dia haviam sido metodistas, dentre eles Ellen White. Ela entendia claramente que a Igreja Adventista deveria ser um movimento multiplicador de novos discípulos e novas igrejas, uma organização em missão, não uma organização para cuidar apenas das igrejas existentes:

“Tenho sido instruída no sentido de que não devemos ter grande ansiedade por agrupar demasiados interesses na mesma localidade, mas procurar pontos em outros distritos mais isolados, e trabalhar em novos lugares… As sementes da verdade precisam ser semeadas em centros que não foram trabalhados. Desenvolve um espírito missionário a obra em novas localidades. O egoísmo de manter grandes grupos reunidos não é o plano do Senhor. Entrai em cada novo lugar que seja possível, e começai a obra de instruir nas vizinhanças os que ainda não ouviram a verdade.”[5]

Ellen White também se preocupou em multiplicar líderes plantadores de igrejas. Ao invés de usar as mesmas pessoas para abrir igreja após igreja, ela sentia que as novas igrejas deveriam suprir liderança para continuar o processo.

“Ao estabelecerem-se igrejas, deve-se-lhes apresentar o fato de que é mesmo dentre elas que hão de sair os homens que devem levar a verdade a outros, e levantar novas igrejas; pelo que todos devem trabalhar, cultivar o máximo possível os talentos que Deus lhes deu, e exercitar a mente para se empenhar no serviço de seu Senhor”.[6]

Hoje em dia, há alguns líderes que desejam um crescimento saudável de suas igrejas, mas que não consideram a multiplicação de líderes, de pequenos grupos e de igrejas. Embora os críticos não declarem suas objeções de maneira direta e clara, algumas podem ser identificadas:[7]

  1. Mentalidade do “quanto maior melhor”. Para muitos, a ideia de estabelecer uma grande igreja é mais atrativa do que a de multiplicar comunidades. Eles pensam que a melhor estratégia denominacional deveria ser a de ajudar as igrejas pequenas a se tornarem igrejas grandes. Porém, as estatísticas não apoiam a suposição de que o tamanho é a melhor maneira de alcançar as pessoas. Pelo contrário, igrejas novas e menores são mais eficientes para a evangelização do que igrejas velhas e grandes.[8]
  2. Mentalidade de dependência pastoral. Tanto a mentalidade megalomaníaca quanto a mentalidade de depender do pastor buscam limitar, ao máximo, o número de igrejas em determinada área. Qualquer proposta de abrir uma nova igreja encontra resistência porque, para os membros, o ideal é copiar o modelo das igrejas modernas que possuem um pastor dedicado a suprir suas necessidades. Porém, para Ellen White, dependência pastoral é uma evidência de que essas igrejas não foram discipuladas e de que necessitam de conversão.[9]
  3. Mentalidade da revitalização dos agonizantes. Esta é a suposição idealística de alguns líderes que defendem a ideia de que a denominação deveria se concentrar em resgatar as igrejas que estão morrendo antes de tentar abrir novas igrejas. Por que deveria abrir uma nova quando há muitas vazias? É triste observar que muitas igrejas foram abertas de maneira errada e no local errado. Outras são vítimas de uma liderança rígida e de uma herança tradicional. Porém, salvar igrejas que estão morrendo é muito mais difícil e custoso do que abrir uma nova igreja. Uma estratégia ideal deveria envolver esforços para a revitalização de igrejas decadentes enquanto simultaneamente se planta novas igrejas. Plantar igrejas é um fator catalisador para a renovação das igrejas existentes.[10]
  4. Mito do “já alcançado”. Esta mentalidade desencoraja o plantio de novas igrejas em alguns campos que possuem pelo menos uma congregação em cada cidade. Estatisticamente, eles se jactam de que o seu território já esteja evangelizado. O fato, porém, é que milhões de pessoas de diferentes grupos sociais e culturais estão espalhados por sua geografia sem que nenhum esforço sério seja feito para alcançá-los.[11]

Mesmo que algumas pessoas se oponham à ideia de multiplicar pequenos grupos e plantar igrejas, precisamos fazê-lo porque é bíblico e amplamente apoiado no Espírito de Profecia. E, embora haja alguma resistência da parte de alguns, as regiões da Igreja Adventista do Sétimo Dia que priorizam a multiplicação de igrejas têm experimentado um vigoroso crescimento que fala por si mesmo. Mesmo as igrejas evangélicas e pentecostais estão experimentando o valor e a prioridade dessa prática.

Estratégia Sugestiva de Multiplicação de Igrejas

Uma estratégia deveria incluir pelo menos seis ingredientes que respondem a seis questões básicas. Primeiro, que área você está tentando alcançar? A resposta consiste em selecionar o melhor local disponível para plantar uma nova igreja. Segundo, que pessoas você deseja alcançar? A resposta envolve a descoberta do perfil do público alvo. Terceiro, quem tomará parte no projeto? A resposta deve considerar a seleção e treinamento de uma equipe de evangelistas pioneiros. Quarto, como você vai preparar a comunidade para receber a Palavra? A melhor resposta é prover uma abordagem holística de cultivo baseado no método de Cristo. Quinto, qual será o método de colheita a ser usado e o processo de discipulado para os novos membros? E, finalmente, onde a nova igreja se reunirá? Exploremos um pouco mais essas perguntas:

Selecionar a área. Para se selecionar um bom lugar para iniciar uma nova igreja ou para discernir dentre várias comunidades qual deveria ser a primeira a ser penetrada, as seguintes perguntas são básicas: A população é grande o suficiente para suportar uma igreja? A área em consideração está crescendo? Em que direção a cidade está indo? Como a população está distribuída agora e como será dentro de vinte anos? Existem terrenos disponíveis com boa localização e preços razoáveis? Para atender a uma necessidade mais imediata, há auditórios, salões, escolas ou outras instalações? Existe um núcleo de crentes, especialmente maduros, morando na área? Eles estão desejosos de iniciar uma nova igreja e já possuem interessados? Ao investigar a área, você descobriu se há uma igreja mãe, em uma distância máxima de 3-5 km, disposta a apoiar o projeto com orações e recursos? Nem toda comunidade é apropriada para iniciar uma igreja. Em minha experiência, tem sido mais difícil trabalhar em bairros habitados por uma população longamente estabelecida que esteja afiliada a igrejas tradicionais. Por outro lado, bairros de renda muito baixa raramente terão o potencial financeiro para tornar a igreja autossustentada. Deve-se também evitar áreas industriais, estádios e cemitérios. Geralmente existe ali pouco tráfego e poucas casas para serem alcançadas.

Faça um estudo demográfico. O segundo ingrediente é definir o grupo populacional a ser alcançado. Há muita informação estatística disponível no site do IBGE e em secretarias da prefeitura local. Quando estudar esse material demográfico, há pelo menos cinco coisas que o plantador deve saber. Primeiro, descubra a composição socioeconômica da comunidade, notando onde cada grupo reside. Qual a média de idade da população e seu estado civil? Existem mais solteiros, casados ou aposentados? Segundo, observe a tendência migratória da comunidade. Quem está saindo e quem está chegando? Terceiro, conheça as igrejas que estão na área em consideração. Que denominações estão presentes? Qual a média de frequência e a composição social? Quarto, que tipo de problemas as pessoas encontram nesse local e, finalmente, quais a necessidades das pessoas?[12]

Desenvolva um núcleo. Uma possível fonte de pessoas que se tornará o núcleo da nova igreja é a igreja-mãe. O pastor deverá fazer um apelo às famílias voluntárias que moram na área selecionada para que se unam a um pequeno grupo ali. Deve-se ter o cuidado de não prejudicar a igreja-mãe tirando mais do que 15 por cento de pessoas do total de membros da igreja, que não deve ter menos de cem. É importante ter no núcleo várias pessoas da mesma classe ou grupo que a igreja deseja alcançar, bem como interessados e ex-adventistas. Uma vez definido o núcleo, o plantador deveria trabalhar diligentemente para estabelecer senso de comunidade entre os membros desse pequeno grupo, considerando-o um microcosmo da nova igreja. As igrejas que planejam crescer precisam enfatizar tanto as reuniões evangelísticas quanto os pequenos grupos. Igrejas sem os pequenos grupos não serão saudáveis porque terão dificuldades para assimilar os novos membros bem como para capacitar novos líderes.

Cultive o campo. Uma vez que o núcleo esteja se reunindo em pequenos grupos, é importante treinar líderes para realizar as atividades de cultivo da área. Uma maneira de fazer isso é aplicar o método de Cristo no contexto urbano. Para ser mais específico, a missão de Cristo pode ser resumida em fazer amigos, realizar atos de compaixão e partilhar as boas novas.[13] Uma apresentação holística da mensagem de Cristo necessita de planos, programas ou ministérios que conectem com as pessoas na comunidade e atendam suas necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais. Por exemplo, podem-se realizar programas de orientação sobre o estresse, recuperação dos traumas do divórcio, enriquecimento matrimonial, ministério com os solteiros, educação dos filhos e cursos de capacitação profissional. É possível integrar materiais bíblicos de uma maneira apropriada para lidar com as pessoas sem religião. Outra maneira é demonstrar o caráter de Deus buscando maneiras de ajudar pessoas carentes e sofredoras na cidade através de projetos de compaixão. Essas atividades despertarão a simpatia da comunidade para com a nova igreja, além de prover muitos contatos significativos para as atividades evangelísticas. Uma variedade de métodos pode ser usada aqui, inclusive outras abordagens mais tradicionais, tais como os estudos bíblicos e o uso da literatura.

Faça evangelismo. É possível começar uma igreja sem uma campanha evangelística. De fato, é até mais fácil iniciar uma nova igreja atraindo crentes de outras igrejas adventistas do que ganhando novos discípulos da comunidade. Porém, se a equipe de plantadores da nova igreja não é intencional na prática do evangelismo, a nova igreja perderá seu foco e zelo evangelístico. Duas coisas são necessárias para realizar o evangelismo. A primeira é incluir uma estratégia individual de evangelismo. As pessoas do pequeno grupo (núcleo) precisam assumir uma responsabilidade pessoal no intuito de alcançar as pessoas perdidas da comunidade. Uma sugestão é incentivar os membros a colocar o nome de pessoas responsivas numa lista e orar diariamente por eles; cultivar relacionamentos; atender suas necessidades; e aguardar momentos de receptividade para testemunhar. A segunda é elaborar uma estratégia corporativa de evangelismo no primeiro ano. O método tradicional da Igreja Adventista de colheita tem sido o evangelismo público. A tragédia é que muitas igrejas usam esse método como semeadura, cultivo e colheita, ao invés de usá-lo apenas como um instrumento de colheita. Por outro lado, outras têm descartado o evangelismo público para usar metodologias das igrejas evangélicas que, na maioria dos casos, não funcionam na Igreja Adventista. Porém, evangelismo é um processo e a colheita é parte desse processo. Se estes ingredientes não forem incluídos, haverá pouco sucesso.

Providencie o prédio. Uma das fases mais críticas do plantio de igrejas é a aquisição de um terreno e a construção de uma casa de culto. O erro mais comum praticado por aqueles que estão à frente de projetos de Missão Global ou de implantação de igrejas é a tentativa de construir a igreja antes do esforço em ganhar almas e edificar a igreja numericamente e espiritualmente. Ellen White sugere o momento da construção: Quando se desperta um interesse em qualquer vila ou cidade, esse interesse deve ser atendido. O lugar deve ser cabalmente trabalhado, até que se erga humilde casa de culto como sinal, um monumento do sábado de Deus, uma luz em meio da treva moral.”[14] Para ela, “Ao iniciarmos a obra em um campo, e reunirmos um grupo, consagramos os membros a Deus e, então, atraímo-los a unirem-se conosco em construir humilde casa de culto. Depois, quando a igreja está terminada e é consagrada ao Senhor, passamos adiante a outros campos.[15]

Concluindo, a igreja necessita ser revitalizada com o estabelecimento de um sistema de multiplicação de discípulos, líderes, ministérios, pequenos grupos e igrejas. Em vez de buscar um crescimento por adição, temos de crescer de maneira exponencial. O estabelecimento de um sistema multiplicador começa com o processo educacional de instruir os membros e os pastores. O plano de Deus para Sua Igreja é ativar uma “corrente do bem” que resulte na salvação de “uma multidão que ninguém pode enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos” (Ap 7:9). Para isso, precisamos de igrejas plantando igrejas, que, por sua vez plante outras igrejas.


[1] Christian Schwarz, Desenvolvimento Natural da Igreja, p. 69.

[2] Schwarz, p.68.

[3] Russell Burrill, Rekindling a Lost Passion, p.67

[4] Robert E. Logan, Raising Leaders for the Harvest, p.34

[5] Ellen White, Evangelismo, p. 47.

[6] Ellen White, Serviço Cristão, p. 61.

[7] Ed Stetzer, Planting Missional Churches, p. 7-13.

[8][8] Emilio Abdala, Guia de Plantio de Igrejas, p.34-36

[9] White, Evangelismo, p. 381.

[10] Stuart Murray, Church Planting: Laying Foundations (Scottsdale, Pa.: Herald Press, 2001), p. 25.

[11] White, Evangelismo, p. 377.

[12] Aubrey Malphurs, Planting Growing Churches, p.268.

[13] Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 143

[14] White, Evangelismo, p. 376.

[15] Ibid., p.381.