Missão Urbana

União Central Brasileira

Missão Metropolitana: conselhos de Ellen White para alcançar as cidades

Por George R. Knight (Trad. de Adventist Review por Kimberly Santana)

Confrontado com as necessidades sem precedentes de Nova York, Don Schneider, presidente da Divisão Norte-Americana, apelou para um alcance evangelístico mundial para a maior cidade da América. Um aspecto desse alcance é dividir Manhattan em 48 setores da população e depois recorrer a conferências na América do Norte, às divisões mundiais da Igreja, grupos de leigos, e às instituições para patrocinar obreiros evangélicos em cada um desses setores por um período prolongado. Em 150 anos de sua história, nunca o adventismo procurou acumular essa energia e dinheiro para o alcance de uma cidade. O tempo é certo, e a igreja, afirma Schneider, não pode se dar ao luxo de deixar passar uma oportunidade sem igual.

Mas, essa mesma oportunidade levanta questões sobre a melhor forma de cumprir a missão do adventismo nas grandes cidades do mundo. Essas questões não são novas. A denominação lutou contra eles ao longo do século XX. Muito dessa discussão está centralizada no conselho de Ellen White. Para ela, o assunto não é se as cidades deveriam ser trabalhadas, mas sim em como.

As maiores cidades do mundo proporcionaram a Sra. White uma situação ambivalente. Por um lado, não há a menor dúvida de que ela entendia que era melhor que familias cristãs morassem na área rural, onde poderiam evitar a corrupção, a maldade e problemas de saúde relacionados às cidades e, ao mesmo tempo, pudessem nutrir sua espiritualidade na atmosfera da natureza. Por outro lado, ela se preocupava com o fato de que a igreja havia negligenciado a obra do evangelho nas grandes cidades. Essa negligência seria o foco de seu ministério entre 1901 e 1910.

Mais tarde, Ellen White estava tão insatisfeita com a  falta de progresso do adventismo que chegou a questionar a conversão do presidente da Associação Geral, Arthur G. Daniells, sugerindo que diante do que ela acreditava ser uma falta de interesse no trabalho nas cidades, ele não era qualificado para liderar os adventistas. Ela chegou a negar-lhe uma entrevista até que ele apresentasse estratégias agressivas para alcançar as milhares de pessoas das grandes cidades.

Alguns assuntos a deixaram muito agitada ao longo de seu ministério. Ela estava pronta para ir a qualquer lugar para tirar a denominação do “centro morto” em sua missão nas cidades. [1]Para Ellen White, o assunto não era a necessidade em trabalhar nas cidades e sim como melhor fazê-lo. Seu papel de liderança na defesa do trabalho nas cidades deu-lhe um lugar central nas discussões adventistas sobre a melhor forma de propagar o evangelho na cidade.

Aqueles que estudaram a missão das cidades através dos escritos de Ellen White conhecem o princípio estabelecido por ela de “trabalhar na cidade, mas viver fora dela”. Este conceito pode ser encontrado em vários de seus textos. É desígnio de Deus”, escreveu ela em 1903, “que o nosso povo deve permanecer fora das cidades, e a partir destes postos, alertar as cidades e levantar neles memoriais de Deus.[2]

Disse a mensageira de Deus: ”não devem as cidades ser avisadas? Sim; não pelo povo de Deus vivendo nelas, mas por eles visitando-as, para avisá-los do que está vindo sobre a terra” [3]

Essas duas frases são similares a outras que Ellen White escreveu através dos anos. Como resultado, alguns têm sustentado que é errado  colocar  obreiros adventistas nas cidades e que fazê-lo é considerado apostasia. É essa posição que precisa ser reexaminada. É muito fácil pegar as frases de Ellen White e aplicá-las sem examinar o contexto do assunto.

Seu livro Conselho Sobre Educação provê um exemplo interessante de sua abrangência sobre o tema do trabalho na cidade. As primeiras escolas adventistas tinham sido em cidades pequenas. Em relação à fundação da Escola de Avondale na Austrália, ela escreveu que “Uma educação apropriada nunca pode ser dada aos jovens neste país, ou qualquer outro país, salvo se forem separadas a uma grande distância das cidades. Os costumes e práticas das cidades não convém para a mente dos jovens, para a entrada da verdade.”[4]

Seguindo esse conselho e ao fato de que Ellen White afirmou que Avondale deveria ser uma escola modelo para outras escolas adventistas,[5] nos 15 anos seguintes, escolas adventistas de todo o mundo estabeleceram-se em campus rurais. Alguns, como o Colégio de Battle Creek e o Colégio de Healdsburg, até venderam seus edifícios e compraram uma grande área cultivada no país. Ellen White não havia deixado a menor dúvida sobre a sua visão sobre o tema.

Mas no início do século XX, a Sra. White começou a dar uma segunda linha de conselho. Naquele tempo, a igreja começou a fazer incursões entre as classes mais pobres em algumas das cidades maiores. Qual era o seu conselho em face àquele desenvolvimento? “Tanto quanto possível”, escreveu ela em 1909, “todas as escolas deveriam ser estabelecidas fora das cidades, mas nas cidades há muitas crianças que não podem freqüentar escolas fora das cidades; e em benefício destes, as escolas devem ser abertas nas cidades, bem como no campo”.[6]

“Nunca” é um termo diferente de “tanto quanto possível”, mas representa a amplitude de conselho da Sra. White, uma amplitude muitas vezes esquecida. Ela escreveu sobre o tema tanto em termos de ideal e de real. O ideal era sempre as escolas rurais, mas a realidade da missão é de algumas escolas na cidade.[7]

A Sra. White também expressou a distinção entre o ideal e o real em outras áreas da missão urbana. Em uma de suas declarações mais contundentes sobre esse estilo de evangelismo, onde se mora fora da cidade, mesmo trabalhando dentro dela, ela observou (no contexto da criação de um sanatório na região de Nova York), que “será uma grande vantagem ter os nossos edifícios em locais afastados, na medida do possível”,[8] indicando, como fez no campo da educação, que nem sempre seria possível. Quando se apresentava  um conflito entre o cumprimento da missão pela denominação e a vida rural, a necessidade de cumprir a missão sempre prevalecia.

 

MODELO ALTERNATIVO DE MISSÃO NAS CIDADES DE ELLEN WHITE

Leitores perceptivos podem ter notado que as duas ilustrações que usei acima tinham a ver com instituições adventistas. Isso não foi um acidente, porque cada uma das 22 citações sobre esse estilo de evangelismo encontrados em Medicina e Salvação, Mensagens Escolhidas, Vida no Campo, e Evangelismo são escritas no contexto do estabelecimento de instituições adventistas médicas, educacionais e editoriais.[9] Não só cada uma das citações nas compilações de Ellen White, relativas ao evangelismo realizado do lado de fora das cidades se referem invariavelmente a instituições, mas também àquelas utilizadas pelos dois principais pesquisadores sobre o tema.[10] Deve-se notar, contudo, que sua perspectiva é muitas vezes incompreendida em compilações, já que as declarações dessa maneira de realizar o evangelismo nem sempre são fornecidas em seu contexto completo.

A Sra. White era totalmente contra o estabelecimento de instituições dentro das cidades, caso fosse possível evitar. Ela procurou desencorajar o estabelecimento de um grande número de famílias nas cidades por causa do trabalho institucional. Mas em relação às igrejas locais, ela escreveu em 1907: “Repetidamente, o Senhor instruiu-nos que devemos trabalhar nos centros das cidades, e morar nas áreas rurais. Nelas podemos ter casas para realizar cultos, como memoriais de Deus; mas as instituições para a publicação das nossas literatura, tratamento dos doentes, e para a formação dos trabalhadores, devem ser estabelecidas fora das cidades. “[11]

A Sra. White não só defendeu as igrejas da cidade, mas ela falou várias vezes como o trabalho de evangelização das igrejas deve ser realizado. Em Atos dos Apóstolos, por exemplo, ela observou que “embora seja da ordem de Deus que os trabalhadores escolhidos de consagração e de talento sejam colocados em importantes centros, é também o Seu propósito que os membros das igrejas que vivem nessas cidades usem seus talentos, dado por Deus, para ganhar almas.”[12]

Ela escreveu em 1909 que “o Senhor me apresentou o trabalho que deverá ser realizado nas nossas cidades. Os crentes nessas cidades devem trabalhar para Deus, nos bairros de suas casas.”[13] Um ano depois , ela aconselhou: “Especialmente os membros das igrejas que vivem nas cidades, devem exercer com toda a humildade, o seu talento dado por Deus, no trabalho com aqueles que estão dispostos a ouvir a mensagem, que deve chegar ao mundo neste momento.”[14]

Alguns anos antes ela foi bem clara ao dizer que alguns adventistas deveriam mudar-se para a cidade e contruir igrejas. “Nós vemos”, ela escreveu, “a grande necessidade de trabalho missionário para levar a verdade não somente aos paises estrangeiros, mas àqueles que estão próximos de nós. Perto de nós existem cidades onde os esforços valem a pena para salvar almas. Por que as famílias não se estabelecem nessas cidades e vilas, para estabelecer ali o padrão de Cristo, trabalhando em humildade, não da maneira deles, mas da maneira divina, e então trazer a luz para os que ainda não tem o conhecimento? [15]

 

Assim, encontramos nos escritos de Ellen White, dois conjuntos paralelos de conselhos: ora ela defende o  ministério das instituições “fora das cidades”; ora o trabalho da igreja local atuando “dentro da cidade. Sendo assim, precisamos perguntar por que apenas um conjunto de conselhos recebeu muita publicidade. A resposta, sem dúvida, é que estas declarações foram publicadas repetidamente na forma de coletâneas, enquanto o outro grupo de declarações, embora igualmente válidos e importantes, têm sido negligenciadas. Assim, os adventistas têm, geralmente, realçado apenas uma das perspectivas de Ellen White.

 

O CASO DE STEPHEN HASKELL

Um dos exemplos mais interessantes da “outra metade” do conselho da Sra. White sobre o trabalho da cidade é de Stephen N. Haskell, que começou a trabalhar em Nova York no verão de 1901, com a idade de 69 anos. Ele e sua esposa alugaram um apartamento do sexto andar da 400 West Street. A Sra. Haskell informou que todos os quartos eram iluminados e arejados. Ela passou a notar que havia 56 apartamentos no prédio e que eles haviam começado a obra do evangelho em seus próprios edifícios e adjacentes, vendendo livros, dando estudos bíblicos, e fornecendo instruções práticas e cuidados médicos. Quando os que haviam sido adventistas durante algum tempo pediram aos Haskells e seus ajudantes para visitar seus próprios contatos, o Haskells lhes disseram que eles precisavam se tornar ativos por eles próprios, já que os missionários tinham muito a cumprir com as almas famintas que eles encontravam.

 

Os Haskells acharam que era uma grande vantagem serem localizados no bairro de seu trabalho. Eles realizavam reuniões com as pessoas interessadas em seu próprio salão.[16] Stephen Haskell, pensando sempre em fazer a coisa certa, escreveu à Sra. White: “Espero ouvir de você,  se o Senhor tem alguma luz especial relacionada com a nossa obra aqui”.[17] Ela enviou a Stephen e sua esposa muitas cartas sobre o assunto. No inicio de janeiro de 1902, quando sua missão já tinha aproximadamente cinco meses de funcionamento, Ellen White escreveu a eles, dizendo:

 

A nossa forma de trabalhar deve seguir a ordem de Deus. O trabalho que é feito para Deus em nossas grandes cidades não devem ser de acordo com a imaginação do homem… Irmão (Haskell), o Senhor lhe deu uma abertura da cidade de Nova York, e o seu trabalho de missões aí deve ser um exemplo do que a obra nas cidades deveria ser… Seu trabalho em Nova Iorque começou corretamente. Você precisa fazer em Nova York um centro para o esforço missionário… O Senhor deseja que este centro seja uma escola de treinamento para os obreiros e nada deverá interromper este trabalho.[18]

 

É interessante para o nosso estudo saber que Ellen White pudesse elogiar Haskell por trabalhar dentro da cidade, embora em Junho de 1899, ela houvesse escrito sobre a localização dos sanatórios que como o povo guardador dos mandamentos de Deus, devemos abandonar as cidades. Assim como fez Enoc, nós devemos trabalhar nas cidades mas não residir nelas.[19] Por aquele tempo, Haskell e seus colegas  já estavam em Nova York por cerca de 15 meses, e podiam relatar aproximadamente 50 a 60 novos adventistas e a formação de uma igreja.[20]

 

PERSPECTIVAS

Tal como acontece com muitos temas, idéias de Ellen White sobre os trabalhos da cidade são mais complexas do que alguns imaginavam. Ela sempre manteve o ideal de uma vida rural, mas não deixou que isso a cegasse com relação às necessidades da missão na cidade. Enquanto ela sustentava a idéias da instituições “tão longe quanto possível”, ela também sentia-se bastante confiante em recomendar o trabalho da cidade nas metrópoles.

A Sra. White estava profundamente preocupada com as necessidades de Nova York e outras grandes cidades. Essas necessidades não foram alteradas. A missão para a cidade ainda é o maior desafio para o adventismo. Na verdade, as cidades maciças do mundo são provavelmente as mais intocadas na missão adventista. Como Igreja, temos feito bem na África, Ásia e América do Sul. Mas cidades como a de Nova Iorque clamam por socorro. Há quase um século, Ellen White disse:

 

É correto enviar recursos para a China…. Mas, enquanto os planos estão sendo realizados para alertar os habitantes de várias nações em terras distantes, o que está sendo feito em favor dos estrangeiros que vieram para as margens da nossa própria terra? São as almas na China mais preciosas do que as almas na sombra de nossas portas?… Os responsaveis  devem planejar com sabedoria a proclamação da mensagem do terceiro anjo a centenas de milhares de estrangeiros nas cidades da América. Deus quer que Seus servos façam o seu dever para os moradores desprevenidos das cidades. [21]

 

O desafio ainda continua. As grandes cidades da América continuam desavisadas. Mas houve uma mudança nos últimos 90 anos. Considerando que Ellen White pediu a igreja para alcançar os estrangeiros em cidades dos Estados Unidos, se ela estivesse viva hoje, ela saberia que grandes igrejas adventistas da cidade são predominantemente compostas por pessoas não-nativas dos Estados Unidos. Embora ainda reste muito a ser feito, o desafio ainda maior em 2011 é chegar aos norte-americanos nativos nas grandes cidades, sejam eles negros, brancos, hispânicos ou asiáticos. Alguns dos maiores grupos de povos não alcançados no mundo de hoje são os norte-americanos nativos em Nova York.

Um século atrás a Sra. White observou que “o trabalho na Grande Nova York deve ter a ajuda dos melhores trabalhadores já encontrados”.[22] Falando em trabalho nas cidades em 1908, ela escreveu que “as pessoas precisam ser encorajadas. Elas já atrasaram muitos anos para realizar o trabalho que Deus lhes pediu que fizessem. Repetidamente as necessidades das grandes cidades têm sido apresentadas ao nosso povo. Deus chama missionários a entrarem nas cidades sem demora “. [23]

 

Esse conselho tem um som distintamente moderno. As necessidades de Nova York ainda são grande novidades. As portas foram abertas. A igreja vai responder? Temos a opção de iluminar a estrada do Rei, ou continuar a debater as melhores formas de fazer nada.

 

 


[1] Arthur L. White, Ellen G. White: The Later Elmshaven Years, 1905-1915 (Hagerstown, Md.; Review and Herald Publishing Assn., 1982), pp. 223-228.

[2] Ellen G. White, Evangelismo, p. 76

[3] Ellen G. White, Mensagens Seletas, livro 2, p. 358.

[4] Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã, p. 312.

[5]Veja E. G. White, Life Sketches, p. 374; Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 349; Manuscritos de E. G. White  92, 1900.

[6] E. G. White, Testemunhos para a Igreja, vol. 9, p. 201, Cf., Life Sketches, p. 396, 397.

[7] Para uma discussão sobre o ideal e o real nos escritos de Ellen White, veja George R. Knight, Reading Ellen White (Hagerstown, Md.: Review and Herald Pub. Assn., 1997), p. 90-94.

[8] Ellen G. White, Medical Ministry, p. 309.

[9] Ibid., pp. 305, 308, 309; Evangelismo, p. 76-78, 402; Mensagens Seletas, vol. 2, p. 357, 358; Vida no Campo, p. 29-32.

[10] N. C. (Ted) Wilson, “A Study of Ellen G. White’s Theory of Urban Religious Work as It Relates to Seventh-day Adventist Work in New York City” Ph.D. diss., New York University, 1981); James M. Lee, A Compendium of City-Outpost Evangelism (Loma Linda, Calif.: James M. Lee, 1976).

[11] Ellen G. White, Mensagens Seletas, livros 2, p. 358.

[12] Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 158.

[13] Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, vol. 9, p. 128.

[14] Ellen G. White, Medical Ministry, p. 332.

[15] Ellen. G. White, Serviço Cristão, p. 180.

[16] Hetty Haskell to E. G. White, July 29, 1901; S. N. Haskell to E. G. White, July 18, 1901; July 29, 1901.

[17] S. N. Haskell to E. G. White, July 18, 1901.

[18] White, Evangelismo, p. 385, 386.

[19] Ibid., p. 77, 78.

[20] S. N. Haskell to E. G. White, Oct. 14, 1902.

[21] Ellen G. White Manuscrito 45, 1910.

[22] White, Evangelismo, p. 384.

[23] Ellen G. White, Manuscrito 7, 1908.