Missão Urbana

União Central Brasileira

Igrejas Focadas na Comunidade (IFC)

Por Jair Miranda – Associação Paulista Leste.

Um cenário de desgraça , dor, doença,  morte,  falta de amor entre as pessoas, famílias desestruturadas, além do rompimento do relacionamento do homem com Deus, são consequências diretas do pecado, que de forma trágica, alcançou a humanidade. Contudo, a divindade interviu com um plano para reconciliar o homem novamente com Deus e minimizar este cenário de tristeza.

A vida, morte e ressurreição de Jesus, põe um fim na hegemonia do pecado e abre para a raça caída uma nova oportunidade de viver uma vida em abundância (João 10:10). O evangelho é a própria expressão desta conquista, pois o filho de Deus veio viver entre nós, buscou os sofredores onde eles estavam para amenizar as consequências do pecado e salvá-los. Após a Sua ascensão, deixou a sua igreja, que é representada por todos os que entregaram as suas vidas a Jesus, com uma atitude de abnegação em prol do semelhante.

Para que uma igreja seja focada na comunidade, ela precisa seguir os mesmos passos apresentados por Jesus quando desempenhou o seu ministério terrestre. O relato de Mateus 9: 35-38 apresenta algumas atitudes que Cristo teve, as quais devem ser o caminho a ser seguido para que este foco na comunidade possa acontecer de forma satisfatória.

Primeiro, Jesus percorria todas as cidades e povoados. Este é um princípio determinante para a concretização desse objetivo de ser uma igreja focada na comunidade (IFC). A igreja de Deus precisa sair das quatro paredes e ir em busca dos que precisam das boas novas do evangelho;

Segundo, o Salvador ensinava, pregava e curava as enfermidades, o que denota a apresentação de um evangelho completo, que contempla a proclamação da palavra e a demonstração prática da mesma. As IFC’s (Igrejas focadas na comunidade) necessitam ter este DNA missiológico, que prega as boas novas e faz as boas obras.

Terceiro, Cristo observou as multidões – para que uma (IFC) cumpra a sua missão de forma satisfatória é necessário que mesma conheça a sua comunidade, suas necessidades, cultura, história, e os principais grupos que vivem na geografia específica de atuação. Se faz necessário que pelo menos a cada dois anos uma pesquisa de campo seja realizada, para verificar o que está acontecendo na comunidade em questão além de observar quais as  novas pessoas que vieram morar no local.

Quarto, teve compaixão delas pois estavam aflitas e desamparadas. A palavra compaixão pode ser descrita como uma compreensão do estado emocional da pessoa. É sentir a dor do outro, ser compassivo com os problemas que alguém está enfrentando. Uma IFC precisa ter um radar que capta os sofrimentos da comunidade onde ela está inserida.

Quinto, a missão exige o envolvimento de toda a igreja para fazer frente ao grande desafio de alertar o mundo do breve retorno de Jesus e dos juízos que sobrevirão a esta terra. Os evangelhos descrevem Jesus treinando, motivando e enviando os seus discípulos para o trabalho de expansão do Seu Reino, e  uma IFC também promove o engajamento das diversas gerações de discípulos para que o alcance seja amplo e redentivo.

Sexto, o nosso Salvador compreendia que unicamente a ligação com Deus é que garante o cumprimento da missão; o convite para que os discípulos orassem ao Pai para que Este enviasse mais trabalhadores, não pode e não deve ser interpretado como se o Senhor não soubesse da necessidade de mais pessoas na sua obra e sim como uma forma de torná-los conectados com os planos de Deus de salvar o homem[1]. Uma IFC avança à luz da Palavra de Deus e da ligação com a divindade por meio da oração.

Foi desta forma que Jesus realizou o seu ministério, e assim deixou um modelo a ser seguido para que a missão de Deus possa ser cumprida. Segundo Ellen White “O método de Cristo é o único que trará verdadeiro êxito em alcançar o povo. O Salvador misturava-se com as pessoas como alguém que desejava o bem delas. Mostrava simpatia por elas, ministrava às suas necessidades e ganhava sua confiança. Então dizia: “Siga-me”[2].

John Perkins sistematiza de forma prática o desenvolvimento do ministério de Cristo,  ao propor o caminho dos três “R” –  (Relocação, Redistribuição e Reconciliação) para que a  expressão do evangelho seja completa e a relevância e foco da igreja na comunidade possam acontecer.[3]

A prática do  R- Relocação acontece quando a igreja decide sair das quatro paredes do templo e vai para perto das pessoas; se relaciona com a associação que deve ter com a comunidade, tanto em aspectos físicos, emocionais e espirituais, onde o preconceito religioso, racial, ou a diferença de status social dá lugar a uma vontade irresistível de está se fazer presente.

O R-Redistribuição se torna efetivo quando as necessidades da comunidade são atendidas. No mundo onde ainda existe pecado, a igreja é comissionada por meio dos seus membros para ser uma luz para a resolução dos problemas que afligem a sociedade, sejam eles de ordem econômica, familiar, relacionados a saúde, etc.

Viver a  R-Reconciliação é uma compreensão de que a grande e última necessidade do homem é ser reconciliado com Deus. Promover a relocação e a redistribuição sem aproveitar a oportunidade para apresentar a história de um Deus amoroso e seu plano para restauração de todas as coisas, o qual se tornou possível por meio da morte substitutiva de Jesus na cruz do Calvário, é deixar de levar única e verdadeira fonte de alegria e salvação. E a única forma da igreja cumprir a reconciliação é apresentando a vontade do Senhor revelada na Bíblia.

Pode-se ver claramente por meio dos 3R propostos, quais os passos que o Salvador precisou trilhar para salvar o homem do pecado e oferecer uma oportunidade de uma nova existência com a imagem de Deus reestabelecida em sua vida.  A relocaçãoestá relacionada ao ato do próprio Jesus encarnar e vir habitar com a humanidade; a redistribuição pode ser vista quando ele abençoava os homens com os atos de libertação, cura, restauração, que eram realizados com poder divino; e a reconciliação se concretizava com a proclamação das boas novas de salvação da alma, e o convite para que as pessoas o seguissem, a qual foi o alvo do ministério de Cristo.

 

Tornando a relocação uma realidade:

– Uma IFC precisa conhecer a realidade da comunidade onde deseja exercer a sua influência salvífica; compreender a cultura, os costumes, a situação econômica e social (índices de emprego, moradia, saúde, educação, lazer, segurança) que determinada sociedade apresenta é primordial, pois é a partir daí que se consegue desenvolver projetos que irão atender as necessidades da comunidade.

-As IFC’s vão ao encontro das pessoas e de suas necessidade,  não importa onde elas estejam[4], considerando a situação social, cultural, econômica e espiritual de todos os homens. Segue um alerta a ser seguido: “Também nós precisamos adaptar nossos trabalhos à condição do povo – ir ao encontro dos homens no terreno deles”[5].

– Se faz necessário remover algumas barreiras para que uma congregação estagnada se torne uma IFC. A maioria das igrejas não consegue sair da sua rotina de cultos formais e de um foco interno porque não consegue fazer mudanças no uso do tempo utilizado, da ênfase exagerada nos programas que tem um fim em si mesmo e da falta de iniciativa para envolver os membros na missão Segundo os seus dons espirituais.

 

Promovendo a Redistribuição

– As necessidades da comunidade devem ser atendidas com o mesmo poder que o Senhor utilizou quando esteve aqui na terra, desta feita, os dons espirituais são indispensáveis para atender as pessoas nos seus diferentes problemas. Uma IFC incentivará cada membro a utilizar  as suas habilidades, recursos, voz, influência, etc, para abençoar a comunidade.

– As IFC’s procuram engajar todos os membros da igreja de acordo com os diversos talentos que receberam de Deus, pois “A maioria dos membros das congregações estão sentados e sendo ministros de bancos, consumidores de sermões e de programas, que a cada versão deve ser mais produzido, para fazer frente as exigências dos sentidos, enquanto o chamado é para serem ministros de pessoas.”[6]

– Uma IFC enviará os seus membros como embaixadores do Reino de Deus para os diversos setores da sociedade.

“ Cada pessoa está envolvida em algum aspecto ou segmento da sociedade a que pertence: a economia, a agricultura, a saúde, o governo, a educação, a ciência e tecnologia ou a comunicação. Desta forma, cada discípulo de Cristo pode exercer uma influência poderosa na área em que atua ou com a qual tenha familiaridade, desenvolvendo atividades de compaixão para aqueles que estão necessitando de apoio em um desses segmentos. [7]

– A redistribuição também dever ser promovida para as pessoas que ainda não se filiaram a igreja de Deus. Deve-se se dar oportunidade para que elas possam contribuir com os seus talentos ( recursos, habilidades, influência, etc. para promoção do bem estar da comunidade. O exemplo de Neemias fazendo parcerias com o Rei da Pérsia (Neemias 2:3-4; com a rainha (V.6); com os governadores além do Eufrates (V. 7); com a guarda do jardim do rei ( V.8); com o chefe do exército e cavaleiros ( V. 9) e com o povo em Jerusalém ( V.13-16), para a execução do seu projeto ministerial, deve ser um incentivo para que o mesmo possa ser replicado nas IFC’s.

 

Vivendo a Reconciliação

-As -IFC’s têm a grande comissão de Mateus 28:19-20 como o grande ideal a ser alcançado. Todas as suas estruturas, sejam elas, as Unidades de Ação da Escola Sabatina, os Pequenos Grupos, ministérios e departamentos, buscam fazer novos discípulos, proclamando um evangelho completo, que atende as necessidades das pessoas, e a maior das necessidades, que é o conhecimento de Deus.  Para provover a reconciliação,  é precico ter Bíblias abertas nos lares, no trabalho, no colégio, etc. E onde não for possível abrí-la, que se apresente o que o Espírito de Deus colocou no coração.

– Uma IFC compreende que os atos de compaixão abrem as portas da comunidade.  Sobre este assunto diz Ellen White: “Deve-se primeiro atender as necessidades temporais… e depois  se encontrará uma avenida aberta para o coração, onde se pode plantar as sementes da virtude e da religião.[8] Por este motivo ela serve primeiro e salva logo em seguida.

Uma igreja focada na comunidade, é um grupo de pessoas que tem como sua principal prioridade, salvar pessoas, e é cuidando de gente” que isto será possível. Sendo a representante legal do salvador, deseja estar perto da comunidade para observar quais são as suas necessidades mais urgentes, e sem medir esforços busca atendê-las, almeja ver um sorriso nos lábios das crianças, dos jovens e dos de mais idade; sonha ajudar as famílias a restaurarem o ciclo sagrado do lar, e mais do que tudo, deseja conquistar a confiança de todos, pois só assim conseguirá reconcociliá-la.

Uma Igreja  que é  focada na comunidade coloca os 3R’s em prática. Os seus membros adoram juntos e unidos praticam a relocação indo para perto das pessoas, assim como o sal é misturado no alimento. Uma vez que estão perto das pessoas, utilizam os seus dons para abençoar os que estão aflitos, tornando a redistribuição uma realidade. As  (IFC’s)  Cumprem o seu papel de embaixadoras de Deus  enviando os discípulos de Cristo como missionários para promoverem a reconciliação. Segue abaixo algumas atividades práticas para tornar a sua igreja uma IFC.

Atividade prática:

  • Descubra quais as principais necessidades da comunidade onde a sua igreja está inserida;
  • Inicie um movimento de oração em prol da comunidade e pela resolução dos problemas que ela está enfrentando;
  • Descubra quais as habilidades/profissão dos membros da sua igreja e motive-os a consagrarem estes talentos ao Senhor , visando abençoar a comunidade.
  • Organize um cadastro de todos os que foram beneficiados com as ações de compaixão e inicie um programa de visitação para os mesmos, visando apresentar-lhes a boas novas do evangelho.

Motive as Unidades de Ação, os Pequenos Grupos e os departamentos da tua igreja a se tornarem poderosos ministérios quem integrem as ações.

 

[1] Francis D. Nichol, ed., The Seventh-Day Adventist Bible Commentary, vol. 5 (Review and Herald Publishing Association, 1980), p. 372.

[2]WHITE, E. G. A ciência do bom viver. Tatuí-SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009, p.143.

[3] PERKINS, John M.. In PERKINS, John M.. ( Eds.) Restoring At-Risk Communities: Doing it together and doing it right. Grand Rapids: Baker Books, 1995.

[4] FUDER, John. A heart for the city: effective ministries to the urban community. Chicago, IL: Moody Publishers, 2005.

[5] WHITE, E. G.  Evangelismo. Tatuí-SP: Casa Publicadora Brasileira, 2007, p. 484

[6] MIRANDA, J J. Meu talento meu ministério: Cumpra a missão do jeito que você sabe. 1 ed. Tatuí-SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016. P. 45

[7] MIRANDA, J.J. Igreja em Missão: Como tornar sua igreja relevante na comunidade. 2.ed.Tatuí-SP. Casa Publicadora Brasileira. 2016, p.91-92

[8] Testemunhos para a Igreja. Tatuí-SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003. v. 4. P.227