Missão Urbana

União Central Brasileira

Evangelizando o Mundo Islâmico

Jerald Whitehouse. Tradução: Samuel Abdala

 

A Missão Adventista em países muçulmanos tem se limitado, basicamente, em conquistar pessoas de minorias étnicas, deixando boa parte da população Islâmica inalcançada. O número de conversos da comunidade muçulmana à Igreja tem permanecido muito pequeno neste cenário. As razões são várias. A missão cristã na era de 1850 a 1950 (e até mesmo depois) tem sido vista como entrando unida ao embalo do Colonialismo Ocidental. Para a mente muçulmana, é uma simples extensão das antigas Cruzadas, sendo portanto digna de uma retaliação com honra – a Jihad. Soma-se ao problema o completo desprezo que ambos os lados possuem para com o outro. Os cristãos adotam uma mentalidade de Cruzada para com os muçulmanos, que são às vezes vistos como infiéis satânicos. Os muçulmanos respondem em troca com uma mentalidade de Jihad (Guerra Santa) contra os impuros, materialistas, beberrões e “comedores-de-porco” cristãos blasfemadores, que consideram outros como no mesmo nível que Allah.

Através dos anos, missionários Adventistas tentam romper com este impasse. Indivíduos como Erich Bethmann, Robert Darnell, Kenneth Oster, e outros dedicaram suas vidas à criação de uma melhor compreensão sobre os muçulmanos e como comunicar adequadamente a eles a mensagem do Advento. Frutos começaram a surgir na década passada à medida que missionários Adventistas passaram a experimentar abordagens mais compreensivas para com os Islâmicos. Destas iniciativas contextuais, um movimento Adventista dentro da comunidade Islâmica totalizando uns dois mil membros tem demonstrado como nós podemos relacionar com pessoas muçulmanas de maneira eficiente. Ministérios contextuais agora estão sendo estabelecidos em vários lugares. A boa vontade de utilizar novos métodos e melhorar a compreensão do Islã pelas várias entidades de nossa Igreja é encorajadora.

Suposições

  1. Não há justificativa para menosprezar o Islã ou qualquer um de seus componentes. Tornou-se evidente que é mais produtivo entender que Deus tem preservado um traço de verdade dentro dos vários grupos e etnias através de “mensageiros internos” e que Seu Espírito permanece ativo no coração das pessoas daquele grupo. Nosso propósito é identificar estes traços de verdade e construir sobre eles, para que possam expandir a uma compreensão e fidelidade mais completa.
  2. O crescimento espiritual é um processo gradual, passo a passo, durante a vida inteira, e que no caso dos muçulmanos pode levar mais tempo. “Pessoas que não possuem a vantagem de uma herança cristã devem iniciar sua jornada onde quer que se encontrem quando são chamadas por Cristo. Isto significa que devemos ser capazes de servi-los de acordo com a sua habilidade, e não de acordo com a nossa agenda” – Jim Petersen. Muçulmanos serão alcançados somente quando compreendermos o processo de crescimento espiritual que é possível a eles. Uma abordagem doutrinária pode não fazer sentido para eles, aumentando temores que levam à resistência.
  3. A compreensão progressiva de Isa (Jesus) pode também levar algum tempo. Porém, esta compreensão é uma experiência “assimilada”, e não “ensinada”. Por exemplo, os discípulos de Jesus foram progressivamente introduzidos, através de experiências pessoais com Jesus, ao Seu poder (sobre as forças do Mal, enfermidades, e até mesmo a morte), Sua capacidade de conceder a eles este poder, Seus discursos com autoridade, Sua capacidade de perdoar pecados, Sua aceitação e amor incondicional para com eles, Seu poder sobre a morte em Sua própria ressurreição, a promessa de que Ele seria o Rei vindouro, etc. A soma destas experiências, com a guia do Espírito Santo, trouxe uma clara percepção para os discípulos de que Ele devia ser Deus. Muçulmanos devem ser introduzidos gradualmente ao poder e ministério pessoal de Jesus em suas vidas, e só então o Espírito Santo os impressionará com a Sua Divindade. Este assunto, portanto, não deveria ser um tema de debate.
  4. Estudos sobre Bíblia e Al Qur´an deveriam ser introduzidos somente depois de existir um relacionamento de confiança entre o inquisidor e o expositor. Deve haver uma confiança de que nós somos irmãos tementes a Deus e pessoas que se importam, antes que possa haver qualquer estudo mútuo de crescimento espiritual.

 

Estabelecendo a Credibilidade

Paul Hiebert cita vários requisitos para se construir a credibilidade – “Primeiro é necessário compreender as pessoas que servimos tanto quanto a nós mesmos. Precisamos olhar além da superfície das diferenças culturais para os profundos alicerces de nossa cosmovisão. “Em segundo lugar, precisamos obter credibilidade de acordo com o que outros pensam, e não em termos do que pensamos.

“E em terceiro, precisamos nos concentrar em construir pessoas ao invés de programas. Nós do Ocidente devemos, sob uma mira crítica, analisar nossos próprios paradigmas e aprender com as nossas ‘igrejas não-ocidentais’ o papel central dos relacionamentos nas Escrituras. É claro que necessitamos de organização para conduzir a missão da Igreja, mas a organização não deveria nunca ter prioridade sobre os relacionamentos. Somente quando assimilarmos esta lição é que poderemos construir credibilidade diante daqueles a quem servimos.”

Bill Musk, em seu excelente livro Touching the Soul of Islam, instiga nosso pensamento com a necessidade de compreender vários temas-chave no Islã se quisermos comunicar-lhes adequadamente o Evangelho. Honra e vergonha, irmandade e rivalidade, hospitalidade e violência, masculino e feminino, família ou coletivo e o indivíduo, são temas que devem ser entendidos para se estabelecer relacionamentos significativos com os muçulmanos.

Alguns passos devem ser efetuados em um relacionamento com um muçulmano antes que haja uma abordagem com temas espirituais. Antes de tudo, o obreiro deve possuir uma compreensão básica e apreciação pelos temas culturais citados acima. E isto não é opcional. É a base sobre a qual tudo se constrói. Se o obreiro não for visto e aceito pelo grupo-alvo como uma pessoa temente e verdadeiramente submissa a Allah, não há razão para prosseguimento no trabalho. E além do mais, esta não é uma atitude que se deva ter apenas na fase pré-evangelística como truque de pescaria, mas deve ser mantida em todo o ministério durante todo o tempo. Toda e qualquer atividade empenhada, fora do trabalho ou não, contribui para estabelecer uma credibilidade. Tenha em mente que o propósito principal não é meramente quebrar barreiras do preconceito ou estabelecer amizades para que possamos prosseguir para verdades mais importantes. Uma abordagem como esta será facilmente percebida como um truque desonesto.

A credibilidade firma-se em vários componentes:

  • Ser conhecido como um irmão na fé, Seguidor do Livro e de Allah – não levianamente, mas com fervor e seriedade.
  • Ser conhecido como uma pessoa de oração.
  • Ser conhecido como uma pessoa que se importa com os outros.
  • Ser conhecido como alguém digno de confiança, alguém que as pessoas possam buscar quando tiverem dúvidas espirituais.

Portanto, a primeira fase descrita acima deve ser mantida durante TODO o ministério, continuando indefinitivamente. Por exemplo, serviços comunitários e de saúde como os da ADRA, se forem iniciados devem continuar durante todo o ministério, e não apenas na fase pré-evangelística. Utilizar tais serviços apenas no início como “isca” poderá ser mal-visto pela comunidade Islâmica.

 

Crescimento Espiritual

Segue no plano sugestivo abaixo uma seqüência particular de crescimento espiritual que tem sido útil segundo a experiência do autor até o momento. A sequência sugere passos de formação espiritual, não devendo ser vista como uma sequência de tópicos doutrinários. É dividida em seis fases que abarcam passos específicos:

1. Estabelecer credibilidade como irmão na fé.

  • Obreiro é aceito como irmão na fé.
  • Obreiro participa de eventos comunitários tais como casamentos, funerais, festas, etc.
  • Obreiro participa de diálogos de cunho espiritual.
  • Obreiro compartilha literatura e matérias interessantes.
  • Obreiro é visto pela comunidade como amando a Deus e a seu próximo.
  • Indivíduo-alvo aceita a compreensão de Isa (Jesus) como um profeta.

2. Participar de diálogos e discussões saudáveis de cunho espiritual.

  • Obreiro convida indivíduo-alvo a participar de um grupo que se reúne regularmente buscando crescer na verdade.
  • Obreiro e indivíduo-alvo estudam todos os livros sagrados.
  • Obreiro e indivíduo-alvo expressam desejo de conhecer Allah
  • Obreiro e indivíduo-alvo entendem o pecado como uma condição de rebelião.
  • Obreiro e indivíduo-alvo expressam o desejo de receber um novo coração da parte de Allah.
  • Continue com a compreensão de Isa como um profeta.

3. Engajar em uma busca mais séria de conhecer melhor a Allah e receber suas bênçãos.

  • Indivíduo-alvo vê diminuir seu interesse em objetos, lugares, e pessoas sagradas.
  • Indivíduo-alvo tem crescente confiança em Allah, temendo menos aos espíritos do mal.
  • Indivíduo-alvo deseja fazer parte do povo especial de Allah que se prepara para o dia do Juízo.
  • Indivíduo-alvo participa de uma significativa vida diária de oração.
  • Indivíduo-alvo confia no poder de Isa sobre as forças do Mal.
  • Indivíduo-alvo reconhece confiar em Isa como seu mediador no dia do Juízo.
  • Indivíduo-alvo anseia por Isa como o Messias vindouro.
  • Indivíduo-alvo crê em Isa como poder para viver uma vida justa.

4. Rumo à certeza e conforto pessoal da salvação

  • Crê no sacrifício como um presente de Allah à humanidade, símbolo da cobertura de nossos pecados.
  • Restauração da honra na família de Allah envolve o sacrifício para a reconciliação, e não força ou vingança.
  • Confissão de fé no grande sacrifício de Isa.
  • Isa é o Único que pode conceder um novo coração.
  • Isa é o Único que restaura a honra na família ao se entregar como sacrifício; Ele aceita e perdoa pecadores, Ele perdoa pecados.
  • Isa é o grande sacrifício, que Ele doou voluntariamente.
  • Isa é vencedor sobre a morte.
  • Isa é Senhor sobre minha vida.

5. A expressão de crença pessoal através da vida religiosa.

  • Indivíduo-alvo crê no Espírito Santo como a presença de Allah para se ter uma vida justa e testemunhar.
  • Indivíduo-alvo pratica mordomia nos dízimos e doações (Zakat)
  • Indivíduo-alvo se abstém de práticas danosas à saúde.
  • Indivíduo-alvo observa o Sábado.
  • Indivíduo-alvo reconhece Isa como Senhor do Sábado, o símbolo da Criação, Restauração, e Descanso Eterno.

6. Completa Comunhão com o Povo do Final dos Tempos de Allah

  • Indivíduo-alvo enxerga o quadro geral do Grande Conflito.
  • Indivíduo-alvo compreende o propósito do Dia do Juízo.
  • Indivíduo-alvo responde ao clamor – “Retirai-vos dela, povo meu” – Apocalipse 18:4.
  • Indivíduo-alvo acredita nos profetas dos últimos dias.
  • Indivíduo-alvo deseja contínua comunhão com o povo mundial de Allah dos últimos dias.
  • Indivíduo-alvo é batizado.
  • Indivíduo-alvo reconhece que Allah é Um, mas nós O experienciamos em Isa como nosso Mediador e Sua presença no Espírito Santo.

 

Em cooperação com o Espírito Santo, existe uma dinâmica espiritual que tentamos inserir no indivíduo-alvo. É muito mais do que uma mera transmissão de conhecimento. O foco é atingir as necessidades do coração do indivíduo. Através de cada estudo, devemos com muita oração tentar introduzir e aprofundar (gradualmente):

  • Uma confiança nos Livros sagrados e um desejo mais profundo de conhecer melhor a Allah pelo estudo dos Livros.
  • Confiança no poder de Allah que substitui o medo das forças das trevas.
  • Alegria e Paz com a certeza do perdão e de um Mediador no Juízo.
  • Satisfação interior ao obedecer o plano de Allah para minha vida.

Estes são como fios que perfazem a tapeçaria do processo de crescimento espiritual. Cada estudo deve aprofundar uma ou algumas das dinâmicas acima. Este é o cerne de ser um Hanif (um verdadeiro crente no Deus de Abraão) e possuir a taqwah (real justiça interior diante de Allah devido a uma submissão completa).

 

Opções de congregação

Como observou Greg Livingstone, o indivíduo que passa a crer em Jesus tem três opções: 1) permanecer em uma mesquita como um tipo de muçulmano crente em Isa; 2) se juntar a uma igreja cristã tradicional com toda a alienação posterior da família e comunidade, incluindo ameaças de morte e falta de suporte da nova igreja; 3) se juntar a um grupo de muçulmanos crentes em Isa que mantém algumas das formas Islâmicas de adoração.

A opção 3) tem se demonstrado possível, viável e sustentável, muito superior às opções 1) e 2) que raramente funcionam.

Que tipo de congregação você quer estabelecer? É útil observar a tabela gradativa abaixo, que define várias possibilidades de congregação no contexto Islâmico.

C1 C2 C3 C4 C5 C6
Igreja Tradicional, Língua Estrangeira Igreja Tradicional, Língua Cristã Regional Congregação Contextualizada, Formas não-Islâmicas, mas regionais incluindo língua. Congregação Contextualizada, Formas locais da Cultura Islâmica

 

Congregação Messiânica, Identidade Islâmica Grupo Secreto de crentes, Isolado

 

 

 

 

 

C1, C2 e C3 são graus crescentes de adaptação da igreja no local.

C4 descreve uma congregação contextualizada que retém aspectos Islâmicos assimiláveis no contexto Bíblico. Isso incluiria estilos de oração, vocabulário (palavras Islâmicas substituindo termos Cristãos onde for apropriado), estilo de vida e de vestuário. A língua comum da população muçulmana local seria utilizada. A congregação C4 possuiria também algum tipo de ligação com a Organização Adventista.

C5 se refere a uma congregação que ainda mantém uma identidade Islâmica. Os crentes se refeririam a si mesmos como “Seguidores de Isa”. Por definição, não estariam ligados a qualquer Instituição Cristã. No século passado, um número de grupos como este tem surgido no mundo muçulmano. Mantendo uma identidade Islâmica, eles evitam o stigma de “se tornar cristão”, ou “apostatar”.

Em alguns lugares, devido a restrições legais, C5 seria a única maneira de comunhão. Muitos desejariam continuar freqüentando as mesquitas, mas adicionalmente também se reuniriam regularmente com seus irmãos crentes em Isa (C5).

C6 consiste em um indivíduo ou grupo de seguidores secretos de Isa dentro do Islã. Talvez pelo medo, isolamento, ausência de comunhão local ou proibição política, estes crentes conduzem sua adoração discretamente. Muitos C6 se tornaram crentes no Messias através de sonhos, milagres, rádio ou literatura. Eles possuem pouca ou nenhuma comunhão com outros crentes.

O grupo ou congregação estabelecida deve ser capaz de sobreviver fisicamente, espiritualmente, e socialmente na sociedade em que está inserida, além de prover amparo espiritual para os que estão em seus arredores. Não deveríamos impor estruturas organizacionais que arruinassem a sobrevivência física do grupo ou que desviassem o foco do crescimento espiritual para aspectos institucionais.

Em alguns países onde não houvesse liberdade de religião, poderíamos estimular um grupo C6. Em outras áreas, um grupo C5 seria a opção. Onde for possível, um grupo C4 será o objetivo. Sob nenhuma maneira recomendaríamos um grupo C1 ou C2 para crentes muçulmanos. Um grupo C3 pode ser a escolha de alguns muçulmanos conversos, mas seria possível apenas em locais de considerável tolerância religiosa. Tem-se demonstrado que uma congregação mais contextualizada proverá um ambiente de resultados mais significativos espiritualmente.

 

Identidade

A identidade da nova congregação é um assunto crítico, especialmente numa comunidade Islâmica. A depender da identidade que eles assumem, se forem associados a uma organização vinculada ao Cristianismo, serão vistos como Kafirs (infiéis e traidores, desonrando o nome de Allah). Esta certamente não é uma imagem útil para aqueles que desejam influenciar sua comunidade. É uma sentença digna de isolamento dos outros, em alguns lugares digna de morte para remover esta vergonha do Islã. É uma percepção que produz os efeitos contrários aos que desejamos obter. A abordagem mais eficiente é evitar uma identidade institucional cristã e concentrar no processo de crescimento espiritual como plataforma para se ampliar a fé de um indivíduo, e não substituí-la por outra. Quando for perguntado se você é cristão, uma sugestão é explicar que você é um Adventista, ou então que é um Hanif (aquele que se submete verdadeiramente a Deus), prosseguindo na explicação de maneira compreensiva em termos do vocabulário utilizado por um muçulmano e fazendo com que possibilite um relacionamento de confiança em torno de termos espirituais sérios.

A maneira com que os Adventistas vêem a si mesmos é vital. Uma visão útil do Adventismo é a de um movimento do fim dos tempos que clama a todos os povos e grupos religiosos para uma fé e dedicação mais profunda através da crença em Jesus no contexto das Três Mensagens Angélicas. Isso nos permite focalizar no processo de crescimento espiritual ao invés de uma identidade institucional.

Para finalizar, ainda temos a questão de qual seria a identidade assumida pelo novo crente. O conceito de Al Hanif tem servido bem em alguns lugares em comunicar uma postura e mensagem mais concreta e em identificar-se com um grupo global remanescente. Al Hanif é o título concedido àqueles que são verdadeiros filhos de Abraão, que era também um Hanif. A expressão é uma identificação legítima de alguém que pertence ao grupo Remanescente que se prepara para o fim dos tempos. Esta é a razão de ser bem sucedida em defesa dos novos crentes perante a comunidade. Ela os define como aqueles que tomam um passo rumo a uma fé mais profunda, e não como aqueles que trocaram a fé por uma instituição desprezível.

A missão Adventista em relação ao Islã visiona a formação de um corpo de crentes em Jesus no contexto das Três Mensagens Angélicas – o povo remanescente de Deus no fim dos tempos.