Missão Urbana

União Central Brasileira

Estratégias de plantio de Igrejas

por Emílio Abdala

Quando Jesus ordenou aos discípulos a comissão de Mateus 28:19-20, a igreja primitiva obedeceu plantando novas congregações para cumprir a tarefa de discipular, batizar e ensinar, iniciando assim, um processo de multiplicação de mais e mais igrejas[1] Um estudo em Atos revela como o estabelecimento de novas igrejas afetou os cristãos primitivos (At 8:1,4). Eles realizavam o evangelismo de massa (8:5-6, 12) que se estendia dos limites de Jerusalém para novos lugares (8:25) e alcançava um numero cada vez maior de gentios (10:44-48). Através deste movimento leigo, igrejas eram multiplicadas em todas as partes (9:3; 16:5). Mais tarde, um grupo de cristãos de Jerusalém anunciou o evangelho e plantou uma igreja em Antioquia (11:20-21). Este foi o momento mais importante na história do plantio de igrejas. Sob a liderança do Espírito Santo, Antioquia se tornou uma grande agencia missionária para o mundo (13:3). Por outro lado, a igreja em Jerusalém se tornou cada vez mais focalizada em si mesma, perdendo a visão missionária e desaparecendo junto com os judaizantes.

Paulo refletia o espírito de Antioquia quando mais tarde escreveu aos membros de Roma que a sua filosofia de ministério era pregar o evangelho onde Cristo era desconhecido, não edificar sobre fundamento alheio (Rm 15:20-21). Essa era a razão que o “havia impedido” de visitar a comunidade de crentes em Roma (v.22), “mas agora, não tendo já campo de atividades” ali, ele os visitaria em seu caminho para uma nova área a ser desbravada: Espanha (V 23-24). O apóstolo Paulo usou os termos edificar e plantar quando ele se referiu à equipe que trabalhou na cidade de Corinto (1 Co 3:5-11). Em seu zelo evangelístico, Paulo planejava o desenvolvimento de novas congregações em “novas fronteiras” (2 Co 10:13-16). Seu objetivo era o estabelecimento de igrejas em cada grande cidade da Ásia Menor e também na Europa. Em tudo isso, obviamente, ele era sensível à direção do Espírito Santo (At 16:7-13).

A Igreja Adventista do Sétimo Dia recebeu muito conselho sobre o estabelecimento de novas congregações. Através de seu ministério, Ellen White aconselhou a igreja a desenvolver uma estratégia de plantio de igrejas que estabeleceria o adventismo em cada cidade e vila. Uma de suas declarações mais veementes foi: “Sobre todos os que crêem, Deus colocou a responsabilidade de fundar igrejas.”[2] Plantar igrejas não é uma opção para os Adventistas do Sétimo Dia. Veja o seu repetido conselho:

Novas igrejas precisam ser estabelecidas, novas congregações organizadas. Neste tempo deveria haver representantes em cada cidade e nas mais remotas partes da terra.[3]

Igrejas devem ser organizadas e planos formulados para o trabalho que se realizará pelos membros das recém-organizadas igrejas. Esta obra missionária do evangelho precisa manter-se atingindo e anexando novos territórios, ampliando as porções cultivadas da vinha. O círculo deve ser estendido até que rodeie o mundo.[4]

Em cada cidade onde a verdade é proclamada, devem-se levantar igrejas. Em algumas cidades grandes é preciso que haja igrejas em diferentes partes da cidade.[5]

Após esta breve descrição da visão de Ellen White para a expansão da Igreja Adventista do Setimo Dia, uma pergunta se torna evidente: Quais as características de um projeto de plantio de igrejas bem sucedido? Os pesquisadores adventistas Dudley e Gruesbeck identificaram alguns ingredientes necessários para se abrir uma nova igreja.[6] Estudando as igrejas recém plantadas que estavam crescendo, eles descobriram que:

  1. a. Elas estavam localizadas na grande área metropolitana com população mínima de 50.000 habitantes ou nos subúrbios de uma grande cidade.
  2. b. Um estudo demográfico da comunidade foi realizado para determinar o tipo de atividades que usariam para atender as necessidades da comunidade.
  3. c. Elas eram apoiadas por igrejas mães localizadas entre 2 a 10 km da nova igreja. Proximidade promove o crescimento e a “competição” não é problema para a igreja mãe ou a filha.
  4. d. A igreja mãe tinha entre 100- 200 membros.
  5. e. O projeto de plantio incluía um programa balanceado de evangelismo. Havia uma mistura de pequenos grupos, projetos sociais, estudos bíblicos e evangelismo público numa nova área.
  6. f. O evangelista ou pioneiro tinha um estilo de liderança democrático.
  7. g. Eles alugaram um local de adoração por três ou cinco anos após o início da nova congregação antes de construir o edifício.

Estratégia Sugestiva de Plantio de Igrejas

Uma estratégia deveria incluir pelo menos seis ingredientes que respondem a seis questões básicas. Primeiro, que área você está tentando alcançar? A resposta consiste em selecionar o melhor local disponível para plantar uma nova igreja. Segundo, que pessoas você deseja alcançar? A resposta envolve a descoberta do perfil do público alvo. Terceiro, quem tomará parte no projeto? A resposta deve considerar a seleção e treinamento de uma equipe de evangelistas pioneiros. Quarto, como você vai preparar a comunidade para receber a Palavra? A melhor resposta é prover uma abordagem holística de cultivo baseado no método de Cristo. Quinto, qual será o método de colheita a ser usado e o processo de discipulado para os novos membros? E, finalmente, onde a nova igreja se reunirá? Exploremos um pouco mais essas perguntas:

Selecionar a área. Para se selecionar um bom lugar para iniciar uma nova igreja ou para discernir dentre várias comunidades qual deveria ser a primeira a ser penetrada, as seguintes perguntas são básicas: A população é grande o suficiente para suportar uma igreja? A área em consideração está crescendo? Em que direção a cidade está indo? Como a população está distribuída agora e como será dentro de vinte anos? Existem terrenos disponíveis com boa localização e preços razoáveis? Para atender a uma necessidade mais imediata, há auditórios, salões, escolas ou outras instalações? Existe um núcleo de crentes, especialmente maduros, morando na área? Eles estão desejosos de iniciar uma nova igreja e já possuem interessados? Ao investigar a área, você descobriu se há uma igreja mãe, em uma distância máxima de 3-5 km, disposta a apoiar o projeto com orações e recursos? Nem toda comunidade é apropriada para iniciar uma igreja. Em minha experiência, tem sido mais difícil trabalhar em bairros habitados por uma população longamente estabelecida que esteja afiliada a igrejas tradicionais. Por outro lado, bairros de renda muito baixa raramente terão o potencial financeiro para tornar a igreja auto-sustentada. Deve-se também evitar áreas industriais, estádios e cemitérios. Geralmente existe ali pouco tráfego e poucas casas para serem alcançadas.

Faça um estudo demográfico. O segundo ingrediente é definir o grupo populacional a ser alcançado. Há muita informação estatística disponível no site do IBGE e em secretarias da prefeitura local. Quando estudar esse material demográfico, há pelo menos cinco coisas que o plantador deve saber. Primeiro, descubra a composição socioeconômica da comunidade, notando onde cada grupo reside. Qual a média de idade da população e seu estado civil? Existem mais solteiros, casados ou aposentados? Segundo, observe a tendência migratória da comunidade. Quem está saindo e quem está chegando? Terceiro, conheça as igrejas que estão na área em consideração. Que denominações estão presentes? Qual a média de frequência e a composição social? Quarto, que tipo de problemas as pessoas encontram nesse local e, finalmente, quais a necessidades das pessoas?[7]

Desenvolva um núcleo. Uma possível fonte de pessoas que se tornará o núcleo da nova igreja é a igreja-mãe. O pastor deverá fazer um apelo às famílias voluntárias que moram na área selecionada para que se unam a um pequeno grupo ali. Deve-se ter o cuidado de não prejudicar a igreja-mãe tirando mais do que 15 por cento de pessoas do total de membros da igreja, que não deve ter menos de cem. É importante ter no núcleo várias pessoas da mesma classe ou grupo que a igreja deseja alcançar, bem como interessados e ex-adventistas. Uma vez definido o núcleo, o plantador deveria trabalhar diligentemente para estabelecer senso de comunidade entre os membros desse pequeno grupo, considerando-o um microcosmo da nova igreja. As igrejas que planejam crescer precisam enfatizar tanto as reuniões evangelísticas quanto os pequenos grupos. Igrejas sem os pequenos grupos não serão saudáveis porque terão dificuldades para assimilar os novos membros bem como para capacitar novos líderes.

Cultive o campo. Uma vez que o núcleo esteja se reunindo em pequenos grupos, é importante treinar líderes para realizar as atividades de cultivo da área. Uma maneira de fazer isso é aplicar o método de Cristo no contexto urbano. Para ser mais específico, a missão de Cristo pode ser resumida em fazer amigos, realizar atos de compaixão e partilhar as boas novas.[8] Uma apresentação holística da mensagem de Cristo necessita de planos, programas ou ministérios que conectem com as pessoas na comunidade e atendam suas necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais. Por exemplo, podem-se realizar programas de orientação sobre o estresse, recuperação dos traumas do divórcio, enriquecimento matrimonial, ministério com os solteiros, educação dos filhos e cursos de capacitação profissional. É possível integrar materiais bíblicos de uma maneira apropriada para lidar com as pessoas sem religião. Outra maneira é demonstrar o caráter de Deus buscando maneiras de ajudar pessoas carentes e sofredoras na cidade através de projetos de compaixão. Essas atividades despertarão a simpatia da comunidade para com a nova igreja, além de prover muitos contatos significativos para as atividades evangelísticas. Uma variedade de métodos pode ser usada aqui, inclusive outras abordagens mais tradicionais, tais como os estudos bíblicos e o uso da literatura.

Faça evangelismo. É possível começar uma igreja sem uma campanha evangelística. De fato, é até mais fácil iniciar uma nova igreja atraindo crentes de outras igrejas adventistas do que ganhando novos discípulos da comunidade. Porém, se a equipe de plantadores da nova igreja não é intencional na prática do evangelismo, a nova igreja perderá seu foco e zelo evangelístico. Duas coisas são necessárias para realizar o evangelismo. A primeira é incluir uma estratégia individual de evangelismo. As pessoas do pequeno grupo (núcleo) precisam assumir uma responsabilidade pessoal no intuito de alcançar as pessoas perdidas da comunidade. Uma sugestão é incentivar os membros a colocar o nome de pessoas responsivas numa lista e orar diariamente por eles; cultivar relacionamentos; atender suas necessidades; e aguardar momentos de receptividade para testemunhar. A segunda é elaborar uma estratégia corporativa de evangelismo no primeiro ano. O método tradicional da Igreja Adventista de colheita tem sido o evangelismo público. A tragédia é que muitas igrejas usam esse método como semeadura, cultivo e colheita, ao invés de usá-lo apenas como um instrumento de colheita. Por outro lado, outras têm descartado o evangelismo público para usar metodologias das igrejas evangélicas que, na maioria dos casos, não funcionam na Igreja Adventista. Porém, evangelismo é um processo e a colheita é parte desse processo. Se estes ingredientes não forem incluídos, haverá pouco sucesso.

Providencie o prédio. Uma das fases mais críticas do plantio de igrejas é a aquisição de um terreno e a construção de uma casa de culto. O erro mais comum praticado por aqueles que estão à frente de projetos de Missão Global ou de implantação de igrejas é a tentativa de construir a igreja antes do esforço em ganhar almas e edificar a igreja numericamente e espiritualmente. Ellen White sugere o momento da construção: Quando se desperta um interesse em qualquer vila ou cidade, esse interesse deve ser atendido. O lugar deve ser cabalmente trabalhado, até que se erga humilde casa de culto como sinal, um monumento do sábado de Deus, uma luz em meio da treva moral.”[9] Para ela, “Ao iniciarmos a obra em um campo, e reunirmos um grupo, consagramos os membros a Deus e, então, atraímo-los a unirem-se conosco em construir humilde casa de culto. Depois, quando a igreja está terminada e é consagrada ao Senhor, passamos adiante a outros campos.[10]

Resumindo, uma igreja saudável é aquela que mobiliza crentes para a seara e multiplica igrejas no mundo. Como A. J. Gordon disse: “ A igreja que não evangeliza, fossiliza.” E James Engel, em sua obra clássica What’s Gone Wrong with the Harvest? reflete a mesma conclusão: “É um princípio demonstrado do crescimento da igreja que o cristianismo ganha numa sociedade somente na proporção em que as igrejas existentes são multiplicadas. A multiplicação de novas congregações de crentes é o resultado natural e esperado de uma igreja saudável”[11]


[1] Ed Stetzer, Planting Missional Churches, p. 38

[2] WHITE. Ellen G. Medicina e Salvacão. Tatuí, SP: CPB, 1991. p. 315

[3] _____. Testimonies. Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1948. v. 6. p. 24.

[4] _____. Evangelismo. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1978. p. 19.

[5] _____, Medicina e Salvação. p. 309.

[6] Dudley e Gruesbeck, Plant a Church, Reap a Harvest, p. 45.

[7] Aubrey Malphurs, Planting Growing Churches, p.268.

[8] Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 143

[9] White, Evangelismo, p. 376.

[10] Ibid., p.381.

[11] James Engel, What’s Gone Wrong with the Harvest?, p. 143-144.