Missão Urbana

União Central Brasileira

Entrevista da Revista Ministério com Emilio Abdala

Breves dados biográficos e curriculares.

Emilio Abdala, Doutor em Ministérios pela Andrews University, trabalha atualmente  como evangelista e coordenador de Missão Global da União Central Brasileira da Igreja Adventista. Ele também é professor de evangelismo e crescimento de igrejas no UNASP, onde coordena um projeto de plantio de igrejas com os estudantes. É autor de vários livros de evangelismo e é casado com a enfermeira Gina, que concluiu o seu doutorado na USP na area de saúde e é professora no Centro Universitário São Paulo – Unasp campus 1.  Os dois filhos, Samuel e Sammila também são acadêmicos na USP.

1 – Mudanças culturais, conceituais e de estilo de vida impõem um cenário que dificulta a resposta do público a alguns métodos tradicionais de evangelismo. Quais são os maiores desafios que o senhor tem encontrado, em sua experiência de evangelista?

Talvez o maior desafio de um pastor seja lidar com a falta de paixão dos crentes para com o perdido. As pessoas estão tão focados em si mesmas que elas não têm paixão pelos perdidos.

Mas existem certas barreiras que impedem as pessoas de aceitar o evangelho. Estas barreiras tornam difícil para uma pessoa participar de uma igreja, e incluem percepções, como o preconceito para com o nome da denominação. Se não me engano, Donald McGavran disse que as pessoas gostariam de se tornar cristãos sem cruzar as barreiras raciais, linguísticas ou de classe. Isso significa que a chave para o evangelismo mais eficaz é construir pontes sobre as barreiras ou remover as cercas que separam a igreja daqueles que procuram alcançar. Isto não significa diluir o conteúdo da nossa mensagem. Devemos sempre lembrar que o evangelho que melhor “vende” pode não ser o evangelho que salva. Ainda assim, devemos nos esforçar para remover as cercas que nos separam das pessoas não salvas, sem alterar a mensagem da salvação em Cristo. Por exemplo, as pessoas modernas se expressam com palmas – ao invés de améns. As pessoas são visuais – e, portanto, vídeo e dramas são mais importantes para eles do que leituras, discursos e sermões. A música e apresentações deveriam ser bem ensaiadas e profissional.

Agora, pode ser que a igreja chegue a conclusão que as cercas são altas demais ou muitas para serem removidas. Então, talvez a melhor maneira de alcançar essas pessoas seja estabelecer uma nova igreja distinta à cultura dos grupos não alcançados. Começando uma nova igreja para um grupo social, racial ou linguístico distinto não deve ser feito a partir de um motivo de racismo ou o desejo de manter a igreja segregada, mas sim a partir de uma constatação de que uma igreja de língua espanhola será mais eficaz para atingir os hispanos do que uma igreja de língua portuguesa.

 

2 – Quando se fala em mudanças na igreja, mesmo que seja de métodos, sempre há algum tipo de objeção. Quais são os mais comuns que o senhor tem encontrado? Como essas resistências podem ser neutralizadas?

As pessoas resistem às mudanças por diversas razões. Coisas familiares nos fazem sentir mais seguros. Muitas pessoas tornam-se perturbadas quando sua rotina é interrompida. Eu posso entender isso. Eu não gosto quando minha esposa reorganiza os meus livros e papéis em minha escrivaninha. Em certo sentido, muitas igrejas são prisioneiras de seu sucesso. Normalmente, essas igrejas continuam a usar os mesmos métodos que eles usaram na década de 50 ou 60. Afinal, eles funcionaram bem, então por que não continuar usando! Um elemento importante para facilitar a mudança é compreender a psicologia da mudança. Quanto melhor você compreender os obstáculos, melhor será a elaboração de estratégias para superar a resistência.

Alguns resistem às mudanças porque a veem como uma ameaça à tradição. Naturalmente, as igrejas mais velhas e as igrejas rurais são mais propensas a isso do que igrejas mais novas. Outras igrejas resistem às mudanças porque elas não se preocupam com os perdidos. Elas se preocupam mais com a manutenção do status quo do que com a evangelização. Finalmente, muitas pessoas resistem à mudança, porque operam em suposições inválidas. Eles acreditam que o que antes era verdade no campo da metodologia continua a ser verdade.

Então, penso que a maneira de neutralizar resistências é apresentar suas ideias de maneira lógica. Comece falando da missão da igreja. Discuta as metas que irão cumprir o propósito da igreja. Explique as mudanças necessárias para alcançar as metas. Demonstre que as mudanças são apenas um meio para um fim desejável. Antecipe perguntas e objeções. Espere que as pessoas perguntem: “Quanto tempo isso vai levar? Quanto vai custar? Quem vai fazer isso?” Se você não puder responder a estas questões práticas, seu plano irá parecer “meia-boca”. E por favor, não critique o que foi feito no passado. Sempre espere oposição e dê às pessoas tempo para se acostumar com a ideia.

 

3 – O conceito de crescimento de igreja às vezes envolve estratégias comuns ao mundo empresarial. É apropriado recorrer a técnicas seculares para aplica-las ao evangelismo?

Sempre houve um debate entre os limites do uso das ciências sociais para o cumprimento da missão. Existe uma reação da parte de alguns membros da igreja a alguns modelos empresariais de liderança. As estatísticas, o marketing e modelos de liderança tirados de consultores de negócios muitas vezes acabam influenciando a maneira como fazemos o trabalho da igreja. O problema é o pragmatismo, tornar o slogan “Se funciona, então é verdadeiro” uma regra de ministério.

Pessoalmente, eu não tenho dificuldade em usar a ciência à serviço da missão, principalmente se não fere princípios bíblicos. Eu creio que toda conhecimento para o bem tem a sua origem em Deus. Muitos missionários foram grandemente ajudados pela antropologia, a arqueologia e a linguística na tradução da Bíblia para determinadas regiões. Na área da sociologia, ninguém discute o valor da pesquisa e da análise de grupos de pessoas ou comunidades a serem alcançadas. A psicologia pode ajudar os pastores no processo de aconselhamento e os evangelistas a entender o processo da decisão ou como lidar com disfunções mentais como a depressão e o estresse. Todos nós recorremos à tecnologia para o uso de melhores equipamentos para a comunicação do evangelho, do uso da internet ou de softwares que facilitam a secretaria ou tesouraria da igreja. Então, eu não vejo problemas de recorrer às ciências de maneira limitada. Mas, acima de tudo, eu destaco a frase clássica de E. M. Bounds que diz: “A igreja procura melhores métodos, Deus procura melhores homens”.

 

4 – Em 2014, a Divisão Sul-Americana enfatizará o evangelismo da amizade. Esse é o “método do momento”?

Não exatamente.Desde o início de 1980, vários livros foram escritos e programas missionários foram desenvolvidos em torno do conceito básico da amizade. Quem não se lembra do famoso seminário de Mark Finley “Fazendo Amigos para Deus” desta época? Acredito que livro Amizade: A Chave da Evangelização de Joseph Aldrich popularizou o conceito de evangelismo do estilo de vida no mundo cristão.

Há um reconhecimento que a maioria das pessoas vem para a igreja através da família, dos colegas de trabalho e dos laços de amizade. A rede social entre crentes e não crentes, especialmente entre crentes recém convertidos e seus amigos, proporciona o que McGavran chamou de “Pontes de Deus.” A palavra grega oikos quesignifica família ou um sistema social aparece nas Escrituras em vários textos relacionados com a evangelização.

Os defensores deste método citam muitos benefícios para a utilização da abordagem do estilo de vida. Primeiro, ele faz uso da avenida mais natural para a propagação do evangelho. A proximidade emocional e física dos incrédulos íntimos oferece amplas oportunidades para testemunhar. Além disto, eles observam que há uma maior possibilidade de assimilação das pessoas na igreja ao longo de um período de tempo.

 

5 – Existem pesquisas indicando maiores percentuais de adesão das pessoas e permanência delas na igreja por causa de relacionamentos/amizade, em relação ao que acontece com a abordagem doutrinária. Fale sobre essas pesquisas.

Win Arn provavelmente foi o primeiro a divulgar sua pesquisa com novos membros. Ele revelou que cerca de 70% dos novos conversos vêm a Cristo por causa de amigos ou familiars. Eu mesmo repeti uma pesquisa semelhante em duas cidades do nordeste brasileiro, Teresina e Salvador, com resultados semelhantes.

Em uma outra pesquisa que avalia o processo de decisão, o Dr Flavil Yeakley, estatístico e pesquisador do crecimento da igreja, relata um interessante estudo que identificou três grupos (240 pessoas cada) de “conversos” de uma apresentação evangelística: aqueles que tomaram uma decisão e agora estão ativamente envolvidos na igreja local, os que se decidiram, mas logo desistiram e os que rejeitaram a mensagem.

Segundo ele, 75 por cento dos que são agora membros ativos vieram a Cristo e Sua Igreja como resultado de um membro que via o evangelismo como um diálogo não manipulativo. Ou seja, foi ganho por alguém que fez perguntas, demonstrou interesse por elas, tornou-se um amigo. Por outro lado, 87 por cento dos que se decidiram, mas logo desistiram consistiam de pessoas que vieram ao seu ponto de decisão através de um membro ou um evangelista que usou o monólogo manipulatório, isto é, alguém que tentou agarrá-los pelo braço e pressioná-los para dentro da igreja. O terceiro grupo consistia de pessoas que não atenderam ao apelo do evangelho – não tomaram nenhuma decisão por Cristo. Yeakley descobriu que 84% destas pessoas entraram em contato com alguém que usou o método da transmissão de informação, ou seja, alguém simplesmente partilhou certos fatos, conteúdo e teologia do modo “é pegar ou largar” – “Se você aceitar exata mensagem, você vai para o Céu; se não aceitar, vai se perder”.

 

6 – Consideramos que somos uma igreja com uma mensagem sólida para este tempo, não há o risco em priorizar o evangelismo da amizade em detrimento do preparo doutrinário consistente do candidato a membro da igreja? Como evitar esse desequilíbrio, a fim de não cairmos no problema de “muitos, mas despreparados”?

Sim, existe o risco do evangelismo da amizade se tornar em muita amizade e pouco evangelismo. É possível permitir que o fator amizade substitua uma apresentação clara das exigências do evangelho. Um bom testemunho, apesar de valor inestimável, nunca pode tomar o lugar do preparo doutrinário consistente no processo de salvação.

Eu acredito que o evangelismo da amizade certamente tem pontos fortes, mas o Novo Testamento parece ter uma abordagem mais abrangente para a evangelização, inclusive tomando a iniciativa de compartilhar a mensagem do evangelho com pessoas com as quais os discípulos não tiveram nenhum contato prévio. Então, podemos ser tentados a negligenciar pessoas estranhas ou desconhecidas que precisam do evangelho em favor de investir exclusivamente em amigos mais próximos.O cristão não tem o direito de limitar a obediência à Grande Comissão a um círculo seleto. No entanto, os crentes devem estar cientes de sua responsabilidade de compartilhar o evangelho com seus amigos e íntimos.

Para evitar o desequilíbrio, o evangelismo da amizade deve ser intencional. Devemos aproveitar as relações existentes para testemunhar, mas devemos ser mais abragentes, indo além deles para incluir qualquer pessoa com quem possamos entrar em contato. E para evitar o problema do “muitos, mas despreparados,” destacar a enfase na mensagem. A vida cristã pode reforçar a mensagem, mas nunca substituir a mensagem.

 

 

7 – Que orientações práticas o senhor tem para que pastores e membros façam o evangelismo da amizade, da maneira mais efetiva possível? O que fazer e como fazer?

 Um seminário sobre o evangelismo da amizade deveria ser realizado com os membros da igreja no início do ano. Durante esse seminário, os membros devem ser ajudados a desenvolver um plano que os oriente a identificar e alcançar seus amigos para Cristo.

O primeiro passo é orientar os membros a identificar pessoas do seu círculo de influência. Uma lista das pessoas do seu círculo pode ser organizada nesse estágio. Então peça-lhes que orem por sabedoria e discernimento para que Deus crie circunstâncias na vida das pessoas a fim de atraí-las a Jesus. Eles devem estar alerta para as necessidades das pessoas, pois essa será a porta de acesso ao seu coração.

A seguir, eles devem estabelecer relacionamentos intencionais com as pessoas. Uma maneira de faze-lo é criar pontos de contato através de hobbies ou interesses comuns tais como jardinagem, esportes, costura, livros, cozinha e outros. Nesse estágio eles poderiam estender um convite para uma refeição simples em sua casa. Ainda não é o tempo de falar de temas de religião, mas eles poderiam demonstrá-la através de gestos de cortesia e bondade.

Enquanto continuam a orar, procurem períodos receptivos (tais como casamento, nascimento de um filho, perda do trabalho, crise familiar, estresse, morte de alguém e outros) para mostrar o amor de Cristo. Nesse estágio é importante emprestar livros e vídeos cristãos de boa qualidade que sejam efetivos no evangelismo. Com tato e sensibilidade às preferências e pontos de vista da pessoa, esse é o momento de escolher um veículo de colheita mais apropriado para ele ou ela. Esses veículos podem ser jantares evangelísticos, estudos bíblicos no lar, um vídeo cristão, uma série de conferências ou eventos especiais da igreja.

Após a decisão, ajude o novo cristão a crescer em maturidade e a assumir seu compromisso de fazer discípulos. Participe de atividades juntos, tais como pequenos grupos, treinamentos e cultos da igreja.

 

8 – Em todo esse contexto de mudanças de métodos, ainda há lugar para o evangelismo público?

Deixe-me devolver-lhe a pergunta com outra pergunta: Que método Deus usou mais do que qualquer outra abordagem, exceto o evangelismo pessoal, para alcançar os perdidos? A resposta: a evangelização em massa. A apresentação do evangelho para um grupo de pessoas tem durado como um método atemporal ordenado por Deus nas Escrituras e usado com sucesso ao longo da história.

Os evangelistas do NT eram primariamente plantadores de igrejas. Eu ouso afirmar que a maioria de nossas igrejas foi plantada através do evangelismo público. O evangelista de hoje, em muitos aspectos se assemelha ao apóstolo bíblico. Para alcançar pessoas sem Cristo, o evangelista tem que ir a elas, em vez de esperar que elas venham até ele. Isto significa que a evangelização precisa ser centrada na comunidade, em vez de centrada na igreja. Alcançar pessoas onde elas estão em “território neutro” deve ser o foco central de nossa estratégia. Alguns especialistas em crescimento de igrejas afirmam que o evangelismo é mais eficaz quando acontece na igreja. A minha discordância desta filosofia baseia-se nos exemplos do Senhor Jesus e do apóstolo Paulo. É preciso ter cuidado com a tendência moderna de tornar o evangelista em um reavivalista intinerante da igreja local, o que acontece no Evangelicalismo. Devemos encontrar e ganhar as pessoas onde elas estão (no mundo), e não esperar que elas venham a uma reunião da igreja. Por isso, esse trabalho de evangelizar o perdido e plantar igrejas merece as orações e o apoio de todos os membros do corpo de Cristo.

 

9 – Qual o lugar de importância do evangelismo público, no programa de evangelismo da amizade?

 A série evangelística serve como um instrumento para ajudar os membros a amadurecer a decisão dos seus interessados. Uma semana de colheita deveria ser iniciada apartir de uma lista atualizada de interessados. Se a reunião é para ser um evento de colheita, os convidados já deveriam ter ouvido falar do evangelho e estar prontos para responder às suas reivindicações. Isso pode levar semanas ou meses antes das reuniões. O papel do evangelista é recapitular o ensino doutrinário, concentrando-se em temas de decisão. Mas precisamos lembrar que o evangelismo é mais do que a colheita, embora este seja o nosso objetivo final. Devemos semear e cultivar, além de colher.

 

10 – O que tem sido feito na União Central que pode contribuir para o programa de evangelismo em outros Campos?

 Quando olhamos para trás sobre o nosso trabalho na Missão Global, é verdadeiro dizer que a primeira onda de plantação de igrejas foi territorial. No entanto, hoje, uma nova onda está se desenvolvendo. Esta nova onda é não é tanto territorial, mas leva em conta as diferenças educacionais, sociais, étnicas e culturais. O fato de termos o estado mais populoso do Brasil com 95% da população concentrada nos centros urbanos e povos da mais variada origem internacional nos obriga a preparar recursos e a tentar maneiras criativas de cumprir a missão. Isso significa estabelecer novas frentes de missão urbana e plantação de igrejas diferenciadas para árabes, japoneses, hispanos, universitários, pós modernos e outros segmentos da população. Algumas de nossas associações estão se tornando referência no evangelismo da presença através de projetos de compaixão. Elas pesquisam a comunidade para descobrir necessidades e capacitam voluntários para projetos especiais que atendem as necessidades percebidas nas áreas a serem alcançadas. Temos também um time de evangelistas urbanos experientes que usa uma estratégia relacional de evangelismo conectada a séries de colheita com muita eficiência. E temos também o Núcleo de Missões e Crescimento de Igrejan no UNASP coordenado pelo Dr Volter que tem apoiado as missões transculturais com os estudantes universitários e desenvolvido importantes pesquisas.

 

11 – Qual seu apelo ao ministério adventista da América do Sul, em relação à intensificação dos esforços e unidade na prática do evangelismo, diante do cenário atual do mundo?

 Não existe um apelo melhor do que o que Paulo deu ao jovem Timóteo: “Seja sóbrio em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério.” 2 Tm 4:5