Missão Urbana

União Central Brasileira

Dentro das cidades: com braços amorosos usando os métodos de Cristo para alcançar as grandes cidades do mundo

Gary Crause

O primeiro fim de semana após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, D.C., Graydon Carter, editor da Vanity Fair, estava ao telefone com Christopher Hitchens. Carter estava em sua casa perto da Seventh Avenue, Manhattan,e Hitchens  estava preso no aeroporto de Denver, Colorado. Enquanto se falavam, os dois ouviram uma banda tocando o Hino da Batalha. Intrigado, Carter saiu para a rua e viu uma banda pequena de adolescentes Afro-Americanos, um grupo de estudantes adventistas do sétimo dia de Oakwood College (agora Oakwood University-Universidade de Oakwood).

O grupo de músicos tocou o coração de um editor de uma revista secular no coração de uma das cidades mais seculares do mundo. “A postura nobre deles e sua música atraíam o povo como se tivessem um par de braços amorosos”, escreveu Carter. “Naquele momento, e naquele lugar, era um encanto que  acalmou este peito selvagem.”[1] As cidades do mundo precisam desesperadamente ser envolvidas nos braços amorosos do evangelho. Mais de 100 anos atrás, Ellen White escreveu: “O Senhor tem chamado nossa atenção para as multidões negligenciadas nas grandes cidades, mas pouca consideração tem sido dada ao assunto”[2]

O Desafio
Imagine só ficar na área do novo mercado em Dhaka, Bangladesh, observando as pequenas carroças de duas rodas (riquexós) puxadas por pessoas  descendo a rua Peelkhana, cada um transportando uma pessoa, uma a cada minuto.[3] Estatisticamente falando, você ficaria ali por quase sete dias antes que um riquexó passasse carregando um adventista. Cenários similares, alguns ainda mais dramáticos-acontecem por ai em áreas urbanas em todo o mundo.

Na década de 1880 a Igreja Adventista do Sétimo Dia colocou uma alta prioridade em missões da cidade nos Estados Unidos. A Conferência Geral publicou um relatório anual sobre a missão na cidade a partir de 1885 até 1899. Em 1886, o relatório indicou que havia 36 missões, empregando um total de 102 trabalhadores denominacionais, e treinavam  224 membros leigos como estagiários-internos e instruendos.[4]

Na virada do século um projeto “missionário-médico”  em Chicago, patrocinado pelo Dr. John H. Kellogg, incluiu “um pequeno hospital, clínicas gratuitas, uma cozinha de sopa, programa de visitação de enfermeiras, residências de emergência para homens e mulheres, e a missão  Barco da Vida (Life Boat Mission), onde o trabalho evangelístico e social foi feito. ”  Ao olhar para o  melhor lugar  onde a missão iria estar, Kellogg e o pastor Olsen abordaram o chefe de polícia e pediram para indicá-los  “o lugar mais sujo e perverso de todo Chicago.”[5]

No entanto, poucos anos mais tarde, Ellen White disse que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tinha “esquecido” as cidades. Se formos sinceros, temos que admitir que 100 anos depois, pouco mudou. Em 1910 a população de Nova York era de quase 5 milhões, hoje é quase o dobro disso. Em 1910 Ellen White descreveu o ministério urbano como “o trabalho essencial para este tempo.” [6] Como ela descrevê-lo-ia hoje?

 

Nosso Campo Missionário

As maiores cidades em (ordem alfabética) no mundo são:
♦ 
 Pequim, China
♦ 
 Buenos Aires, Argentina
♦ 
 Cairo, Egito
♦ 
 Delhi, Índia
♦ 
 Dhaka, Bangladesh
♦ 
 Guangzhou, China
♦ 
 Istambul, Turquia
♦ 
 Jacarta, na Indonésia
♦ 
 Karachi, Paquistão
♦ 
 Calcutá, Índia
♦ 
 Los Angeles, Estados Unidos
♦ 
 Manila, Filipinas
♦ 
 Cidade do México
♦ 
 Moscovo, Rússia
♦ 
 Mumbai, Índia
♦ 
 Nova Iorque, Estados Unidos
♦ 
 Osaka-Kobe, no Japão
♦ 
 Rio de Janeiro, Brasil
♦ 
 São Paulo, Brasil
♦ 
 Shanghai, China
♦ 
 Tóquio, Japão.

 

O Caminho a Seguir

Ao enfrentarmos o desafio incrível das cidades, como deveríamos avançar? Ellen White resumiu o ministério da encarnação de Jesus, que ela chamou de “Método de Cristo”[7], em cinco passos. Este método é fundamental para o ministério urbano.

1. Misturando-se com pessoas. No final de 1990, sob a liderança de Marcos McCleary, a Igreja Adventista do Sétimo Dia da Filadélfia Sudoeste, na Pensilvânia, plantou três novas congregações. McCleary levou os membros de sua igreja a misturarem-se com o povo de suas comunidades. Eles formaram um programa local para preparar jovens mulheres  para a vida adulta; eles ajudaram as vítimas das enchentes; e aconselharam jovens da comunidade. O pastor McCleary tornou-se um membro oficial da West Philadelphia Partnership Board, um grupo de organizações dedicadas a melhorar a vida cívica na comunidade.

As Igrejas plantadas estavam envolvidas em tudo: ajudar as pessoas a encontrar empregos, Escola Bíblica de Férias, cuidar de crianças, dentre outras tarefas. Quando McCleary recebeu um chamado para liderar uma igreja em Washington, DC, os líderes comunitários pressionaram o prefeito da Filadélfia para manter McCleary na cidade.[8]

Jesus deixou o céu, veio à Terra, e habitou entre nós. Vestiu a pele humana, teve  Suas mãos sujas, esfregou os ombros com a gente. Os escritores da Bíblia registram como Jesus tocou fisicamente as pessoas. Só em Mateus 8 e 9 Ele tocou cinco pessoas, incluindo um leproso, assim fazendo-Se ritualmente impuro de acordo com a tradição judaica.[9] É ótimo distribuir literatura, realizar o evangelismo público, realizar programas de rádio, Internet e propaganda. Mas estes programas  não podem substituir o misturar-se com as pessoas, a participação pessoal. Assim como nós enviamos missionários para outras terras e culturas, precisamos de missionários nas cidades dispostos a se comprometerem a longo prazo no terreno para um ministério nas cidades.

Adventistas nas Cidades

♦ Há pelo menos 2O cidades com populações de pelo menos 10 milhões.

♦ 
 A razão população-adventistas nas maiores cidades do mundo é 953:1.

♦ Em comparação, a proporção da população- Adventista fora das maiores cidades do mundo é 423:1.

♦ Em 2010 havia um adventista para cada 405 pessoas

 

 

2. Mostrando simpatia. Falando sobre a cidade de Nínive, Deus perguntou retoricamente: “Não deveria eu ter pena dessa grande cidade”? (Jonas 4:11).[10] Séculos mais tarde, Jesus mostrou a mesma preocupação: “Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.” (Mt 9:36).

Wayne Krause é pastor de uma igreja na Austrália.[11]  Ele e uma pequena equipe plantaram outra igreja numa área urbana a mais ou menos uma hora ao norte de Sidney. Esta área urbana está no meio de uma comunidade de milhares de famílias jovens, a grande maioria dos quais nunca puseram os pés dentro de uma igreja cristã. Um dia, um casal da igreja de Wayne estava fazendo compras em um shopping local, quando um jovem se aproximou deles e perguntou se eles iriam levá-lo para uma clínica de recuperação de drogas. Sem pensar duas vezes, eles o levaram para lá imediatamente. Depois dirigiram-no para casa e cozinharam-lhe uma refeição quente.

O jovem começou a freqüentar a igreja cada sábado, e depois os membros levavam-no de volta para a clínica. Em uma audiência no tribunal, os membros da igreja surpreenderam o jovem, comparecendo para apoiá-lo. Algumas semanas depois, a família inteira deste rapaz apareceu na igreja. Vestidos no estilo “heavy-metal”, com correntes e couro, eles se sentaram nos bancos da frente da igreja. O namorado de uma das irmãs era o vocalista em uma banda de heavy-metal e tinha todos os dedos das duas mãos cobertas de prata. Wayne olhou para fora da plataforma e decidiu mudar seu sermão e falar sobre o grande conflito entre o bem e o mal.

Ninguém da família era cristã, mas, após o culto a família foi até Wayne e perguntou-lhe como eles poderiam estar do lado de Deus na guerra entre o bem e o mal. Depois de Wayne explicar o evangelho, todos eles pediram para ter Jesus como o centro de suas vidas.

3. Ministrando às necessidades. È nos dito que quando o apóstolo Paulo chegou em Atenas, ele passou algum tempo como turista. Ele “deu a volta e olhou com cuidado” o que os atenienses adoravam (Atos 17:23). Como Paulo, nós temos que parar, olhar e escutar. Há alguns anos atrás, a igreja Wayne descobriu que alguns alunos que chegavam à escola pública local, a cada dia, não tiveram um café da mnhã adequado. Os líderes da igreja começaram a trabalhar com os administradores da escola, e em breve esta igreja adventista do sétimo dia foi servindo as necessidades dessas crianças com fome. Mais tarde, quando a Escola Pública de Wyong Grove decidiu contratar um capelão, eles se voltaram imediatamente para a igreja de Wayne. Rochelle Madden, membro da igreja de Wayne,  foi contratada como capelã desta escola, totalmente financiada pelo governo Australiano.

“Meu papel como capelã é ser um reflexo de Jesus”, diz Madden. “Eu realmente quero que as crianças, pais e professores possam ver um cristão como alguém que realmente se preocupa com eles e com o que está acontecendo em suas vidas”.[12]

Adventistas do Sétimo Dia devem estar na frente em tornar as cidades lugares melhores. No livro de Jeremias, Deus instruiu os exilados judeus sobre como eles deviam agir quando chegassem em Babilônia: “Busquem a prosperidade (Shalom) da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade (Shalom) de vocês depende da prosperidade (Shalom) dela” (Jr 29:7).

A palavra hebraica shalom é uma palavra poderosa, com vários significados. Ela transmite pensamentos de paz, bem-estar e prosperidade. Os adventistas devem estar na frente em  tornar as cidades lugares melhores para se viver. Todos os adventistas na cidade devem ter muitos amigos, porque estão vivendo ai, trabalhando entre as pessoas, e orando para o shalom da cidade.

Jesus modelou um ministério integral ou holístico que perfeitamente equilibrou o aspecto espiritual e físico: “Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças.” Mateus 9:35

Agora, cuidar de necessidades físicas de alguém e negligenciar oportunidades de compartilhar as boas novas sobre Jesus é vender o ministério barato. Por outro lado, apenas falar de coisas espirituais, negligenciando o físico também ignora o exemplo de Cristo e sabota o nosso testemunho.

4. Ganhar a confiança. Em 2004, Andrew Clark foi chamado para Pittsburgh, Pennsilvania, para chefiar os Serviços Comunitários Adventistas, após a passagem dos furacões Ivan e Francis. Era o seu primeiro trabalho depois de se formar pela Columbia Union College (agora Washington Adventist University), com um curso de Teologia. Clark e sua equipe ajudaram as famílias a reconstruírem suas casas e suas vidas.

Após as enchentes terem diminuído e os negócios terem quase voltado ao normal,  a Câmara Municipal local se reuniu para discutir a posssibilidade de concessão de uma comenda especial de reconhecimento ao Serviço Comunitário Adventista pelos serviços prestados.  Em uma significativa homenagem à nossa igreja, mais de 100 pessoas da comunidade se apresentaram para prestigiar Clark e a igreja: pastores de outras denominações, empresários, mães, etc.

5. Convidando as pessoas a segui-Lo. Convidar as pessoas a seguir a Jesus não é uma  etapa artificial colocada no topo de todas as demais. É uma conseqüência natural. Será que todas as pessoas aceitam a Jesus? Não. Isso significa que deixaremos de nos misturar com eles e servi-los? Certamente que não.

Na medida em que Clark e sua equipe misturaram-se, demostraram simpatia, ministraram às necessidades e ganharam confiança das pessoas, eles receberam muitas críticas de outros adventistas. “Você está perdendo seu tempo; onde estão os resultados?”. Mas Deus tem o Seu próprio tempo.

Um dia, um adolescente tatuado com quem Clark vinha trabalhando disse-lhe: “Pastor Clark, eu já posso ser considerado um adventista, ou não?”  Recebi uma mensagem de Clark pedindo ajuda para encontrar um obreiro Bíblico. Solicitações de estudos da Bíblia começaram a surgir de toda parte.  “POR FAVOR AJUDA-NOS !!!!” Andrew escreveu, em seu típico estilo entusiasta. “Somos apenas quatro pessoas já muito sobrecarregadas, tentando fazer o acompanhamento de 70 interessados que surgiram!” Ellen White escreveu que o método de Cristo, quando acompanhado pelo poder de persuasão, a oração e o amor de Deus, “não irá, não poderá ficar sem fruto.”[13]

Será Que Teremos Fé?

Quando Moisés enviou espiões para Canaã,  ele instruiu-os ainvestigar  três coisas: (1) a terra, (2) as pessoas, (3) as cidades. Os espiões retornaram com relatórios positivos da terra e seus produtos, mas também uma imagem assustadora do povo e das cidades (Nm 13:26-30). As pessoas eram gigantes, as cidades eram “fortificadas e mui grandes” (versículo 28). Apenas Josué e Calebe ousaram falar de vitória contra tais obstáculos formidáveis​​.

Hoje as cidades do século 21 também são “fortificadas e mui grandes.” As fortificações não são feitas de pedra, elas são reforçadas pelas fortificações intangíveis do secularismo, do consumismo pós-modernista.  Será que vamos ter a fé de Calebe e Josué para dizer que, com a ajuda de Deus”, nós certamente podemos fazê-lo” (versículo 30)?

 

Gary Krause, diretor da Missão Global da Igreja Adventista do Sétimo dia

 


[1] Vanity Fair, Novembro de 2011.

[2] Em Advent Review and Herald, 11 de novembro de 1909.

[3] Isto é calculado com base de 730 batizados adventistas do sétimo dia em uma população de Dhaka, de 7 milhões de pessoas. Esta é uma figura conservadora; muitas autoridades estimam que a população de Dhaka chega a ser até 15 milhões.

[4] Ivan Warden, “Ellen G. White fala sobre Ministérios Urbanos.”

[5] Citado em Amy Lee Sheppard,” Doers of the Word: Seventh-day Adventist Social Christianity in Thought and Practice During the Gilded Age “” (inédito tese de BA , Departamento de História da Universidade de Michigan, 26 de Março de 2007), p . 67.

[6] Ellen G. White, Medical Ministry, p. 304.

[7] Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 143.

[8] Ver www.advantagetechsolutions.net/SW2001_html/history.htm eMonte Sahlin, Missão em Metrópolis: The Adventist Movement in an Urban World  (Lincoln, Nebr:. Center for Creative  Ministry, 2007), pp 128, 129.

[9] Ele também notou na pressão da multidão o toque de uma mulher que tinha estado doente por 12 anos

[10] Citações bíblicas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional. Copyright © 1973, 1978, 1984, 2011 por Biblica, Inc. Usado com permissão. Todos os direitos reservados.

[11] Para mais informações sobre esta igreja, visitewww.cccc.org.au.

[12] Rochelle Madden, ” My Ministry Idea,” South Pacific Record, 4 de junho de 2011, p. 12.
15 Um vídeo do evento, “Finding Carnegie,” pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=htzzdAHs4co. Para ver mais vídeos sobre esta iniciativa de plantação de igrejas, visite AdventistMission.org e digite “Carnegie” na caixa de pesquisa.

[13] Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 144