Missão Urbana

União Central Brasileira

Aos Metropolitanos: A missiologia urbana de Gálatas

O século 20 testemunhou várias mudanças no cenário da população mundial. Entre elas, a rápida urbanização. A proporção global de população urbana cresceu de 13 % em 1900 para 29 % em 1950 e, de acordo com o 2005 Revision of World Urbanization Prospects, alcançou 49 % em 2005 (sendo que na América Latina, 78 % das pessoas moram em cidades). E, a esta altura, a população mundial, pela primeira vez na história, já tem mais habitantes urbanos do que rurais. A população urbana mundial, estimada em 3 bilhões em 2003, deve atingir 5 bilhões até 2030.

Esperava-se que a rápida urbanização significasse o triunfo do racionalismo, dos valores seculares e da desmistificação do mundo, bem como o relegar a religião a um papel secundário, mas de acordo com um relatório do Population Fund das Nações Unidas, em 2007, “tem havido uma renovação do interesse religioso em muitos países” [1].

Perante tais transformações, o que a Bíblia tem a ensinar sobre o cumprimento da missão no contexto urbano? Como Paulo se relaciona com as cidades no seu ministério? O que a Igreja pode aprender com a experiência dos cristãos da Galácia?

Paulo e as cidades

O contexto urbano era familiar para Paulo. Ele havia nascido numa região metropolitana e conhecia a situação daquelas comunidades ao ponto de mencionar que era “natural de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia” (At 21:39). De fato, esse era um importante centro de comércio, cultura e educação.[2] Além disso, foi a bem-sucedida pregação cristã em Damasco que despertou os ataques de Paulo e ali ocorreu sua conversão (Gl 1:13-17).

Mas Paulo também via as cidades favoravelmente na estratégia evangelística. Na verdade, ele priorizava os contextos urbanos e se dedicava, nas viagens, a visitar e evangelizar cidades. “Elas eram centros estratégicos, não corredores, de onde o evangelho seria espalhado. ‘Todas as cidades, ou vilas, nas quais ele plantou igrejas eram centros de administração romana, de civilização grega, de influência judia, ou de alguma importância comercial’”.[3] Paulo não pregou em todas as cidades do caminho. Ele escolheu aquelas que, por uma razão ou outra, eram importantes para o seu plano de rápida evangelização do império.[4] Naqueles primeiros anos, há menos de uma década da crucifixão de Jesus, a cultura de vila da Palestina havia ficado para trás e a cidade greco-romana havia se tornado o ambiente predominante no movimento cristão.[5] E foi de acordo com essa estratégia que Paulo escolheu trabalhar na região da Galácia e fundar igrejas ali.

Se o mundo de Paulo consistiu basicamente de cidades do Império Romano, talvez fique mais fácil entender sua conclusão quanto a seu ministério urbano, quando diz que “desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo” (Rm 15:19). Apesar de a epístola aos Gálatas não ser tradicionalmente uma “cartilha” para missão urbana, se atentarmos para o contexto em que viviam as pessoas mencionadas nessa carta, certamente poderemos extrair lições importantes para os dias atuais.

Aos gálatas

A região da Galácia tinha várias igrejas aparentemente com organização distinta e fundadas pelo apóstolo Paulo. Esse grupo de congregações é mencionado tanto em 1 Coríntios 16:1 como em Atos 18:23. O Novo Testamento não destaca nomes de lugares ou pessoas naquela região, mas as igrejas estavam possivelmente localizadas em cidades como Icônio, Listra, Derbe e Antioquia da Psídia. A igreja era primariamente formada por gentios, de origem celta, mas ao redor de um núcleo de judeus conversos.[6] Essas cidades estavam situadas ao longo da Via Sebaste, a principal rota de comércio entre Éfeso e a região oriental do império, um canal de comunicação essencial para o governo. Por esse caminho Paulo e Barnabé viajaram, pregaram nas sinagogas e mercados e plantaram igrejas.[7] Apesar de as igrejas gálatas estarem em erro, continuavam sendo verdadeiras igrejas de Cristo. Como parte do seu trabalho naquela região, procurando combater os problemas e alimentar a fé dos irmãos, Paulo escreveu a epístola aos Gálatas.

 

Elementos missiológicos

Ao se aproximar da epístola aos Gálatas, é importante atentar para a dimensão missionária, nem sempre reconhecida, da teologia de Paulo. De fato, como David J. Bosch comenta, “a teologia e missão de Paulo não simplesmente se relacionam como ‘teoria’ e ‘prática’ no sentido em que sua missão ‘flui’ da sua teologia, mas no sentido em que sua teologia é uma teologia missionária” [8]. Neste caso, a introdução da carta oferece o pano de fundo para o seu desenvolvimento, originado na dinâmica da comunicação do evangelho.

Reforçando as características já mencionadas, logo no início de Gálatas, Paulo menciona sua tendência de pregar particularmente aos “de maior influência” com o objetivo claro de “não correr ou ter corrido em vão” (Gl 2:2) e de delegação do trabalho, o que é detalhado no final do capítulo 1 e no capítulo 2. Além disso, sendo sensível à cultura local, Paulo se apresenta como “sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1:14). Tal zelo, no entanto, é ainda maior quanto ao evangelho supracultural. Em relação ao conteúdo do evangelho, J. Herbert Kane, destaca que Paulo era inflexível e dogmático. A mensagem jamais podia ser mudada, nem por um anjo do Céu: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do Céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gl 1:8) [9]. O resultado da missão de Paulo na Galácia, seguindo esses princípios não poderia ter sido mais legítimo. Como George Knight enfatiza, além de responderem ao evangelho com entusiasmo (Gl 4:13, 14; 1:9), as pessoas tinham recebido o Espírito de Deus, que havia operado milagres (Gl 3:2, 3, 5). “Eles tinham tido uma experiência cristã genuína.”[10]

Autoridade na Palavra de Deus. Algumas atitudes infiltradas nas comunidades da Galácia, motivo para o envio da carta, passaram a minar aquela experiência inicial. Paulo não começa sua epístola da maneira habitual, louvando a Deus e orando pelos santos, porque “há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1:7). Esses falsos mestres aparentemente haviam tido bastante sucesso nas suas investidas e haviam desviado um grande número de membros das igrejas da Galácia, em pouco tempo (Gl 1:6). Gálatas convertidos haviam se apostatado através dessa influência e foram chamados por Paulo de “insensatos!” (3:1).

Nesse contexto, até a autoridade de Paulo estava sendo questionada. Apesar de esse questionamento não aparecer explicitamente, o apóstolo inclui duas seções longas reafirmando sua conversão e caminhada espiritual que certamente serviram a esse propósito (1:11-24 e 2:11-21). Ele relembra sua vida anterior de perseguição à igreja de Deus (1:13), sua aprovação pelos demais apóstolos Cefas e Tiago (1:18-19) e pelas igrejas da Judeia (1:22-24). A sua autoridade, no entanto, não estava primariamente baseada nesses fatos: “Faço-vos, porém, saber; irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (1:11-12).

Salvação em Cristo. Esses falsos mestres eram judaizantes, talvez os mesmos que haviam causado problema em Antioquia da Síria (At 15:1), enfatizavam um retorno às tradições judaicas em detrimento do verdadeiro significado do ministério de Cristo e foram qualificados por Paulo de “falsos irmãos que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão” (Gl 2:4). Esses “missionários”, diferentemente da contextualização sábia típica das missões de Paulo, queriam impor sua cultura aos gentios como parte do evangelho.

Tão logo o Evangelho passou a ser pregado àqueles que não eram judeus, as diferenças culturais ficaram evidentes na vivência do cristianismo e no convívio entre eles. Paulo se dedicou à missão entre os gentios (2:7-8). Num primeiro momento de compreensão e adaptação, até mesmo os líderes tiveram dificuldade em lidar com as diferenças. Paulo cita que até mesmo Pedro, ao visitar Antioquia, agiu de modo incoerente com o evangelho da graça (2:12).

Apesar do acirrado debate missiológico nos dias de Paulo envolver a questão prática da circuncisão (Gl 2:3-4, 7-9), a pergunta era: como ser salvo? Em resposta a essa pergunta, na parte central da epístola, Paulo comenta sobre (1) a fé, (2) a lei, (3) os cristãos e (4) Cristo. Primeiramente, ele declara que “o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus” (2:16). E então faz uma pergunta retórica conectada à própria experiência dos gálatas: “Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (3:2). Finalmente, um lembrete sobre o exemplo da fé de Abraão (3:6, Abraão é mencionado novamente em Gl 4:21-31 para demonstrar a prática da justificação pela fé) e o resgate do texto de Habacuque 2:4: “O justo viverá pela fé” (Gl 3:11). Em seguida, Paulo passa para a razão de ser da lei (3:19) e conclui que “a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (3:24).

Na sequência, Paulo destaca de forma especial que se alguém aceita Jesus, torna-se filho de Deus, portanto descendente de Abraão e herdeiro da promessa dada a Abraão. O conceito é expandido alguns versos depois com a conclusão de que acima de tudo aquele que aceita Jesus é um herdeiro de Deus (3:26). “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (3:28 e 29).

Paulo chega ao cerne da questão ao apresentar de forma compacta e concentrada quem é Jesus: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (4:3). Posteriormente, Paulo deixa claro o propósito da sua perseverança “até ser Cristo formado em vós” (4:19), já que era importante que entendessem que Cristo era o libertador (5:1). Paulo ainda faz uma advertência: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes” (5:4).

Como foi mencionado anteriormente, nesta epístola Paulo não está tão preocupado com a circuncisão, apesar de mencionar essa questão, ou outro aspecto da lei, em particular, como o falso ensinamento de que o homem pode se salvar pelas obras, a conciliação do papel da lei e o sacrifício de Cristo (4:8-10).[11] Seguindo a coerência da sua argumentação sobre o relacionamento entre Cristo e a lei, sobre a circuncisão Paulo diz: “Se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo, testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a guardar toda a lei” (5:2-3). Mesmo que chocante para alguns, no seu fervor, Paulo define: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (5:6).

Autenticidade no Espírito. Na última seção do livro, o apóstolo apresenta as credenciais de um cristão autêntico, que pratica aquilo que prega. Paulo introduz essa parte relembrando a própria experiência (4:16-20) mais uma vez. Em seguida, apela aos gálatas por uma vida liberta dos preconceitos tradicionais, mas firme na fé em Jesus Cristo (5:13-15); uma vida de abundante graça, esperança da justiça e atos de amor (5:4-6). Dessa forma, a Igreja na Galácia seria conhecida por andar no Espírito e jamais satisfazer à concupiscência da carne (5:16), por frutificar no Espírito e crucificar na carne.[12]

Essa mudança também serviria de antídoto para as dificuldades do dia-a-dia. Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado” (6:1). Se alguém tiver um carga muito pesada, “levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (6:2). Finalmente, cultivem o amor “e não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (6:9, 10).

Os conselhos práticos de Paulo se encontram após uma pequena introdução entre as duas últimas vezes que Paulo usa a palavra “lei”, sem querer recomeçar a discussão. Ele apresenta que essa seria uma vida de verdadeiro cumprimento da lei de Deus, “porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (5:14). “Pois nem mesmo aqueles que se deixam circuncidar guardam a lei; antes, querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne” (6:13).

 

Gálatas e a missão urbana hoje

Numa civilização cada vez mais metropolitana, a epístola aos Gálatas deveria ser seriamente estudada e aplicada no século 21 por ser especialmente relevante nesse contexto. Os conselhos àquelas igrejas são aplicáveis também às igrejas atuais nos centros urbanos, que enfrentam os mesmos desafios. Os elementos centrais da carta aos Gálatas estão em direta relação com alguns dos principais desafios apresentados por correntes pós-modernistas, que encontram suas expressões mais marcantes nos contextos urbanos. O desafio às autoridades, principalmente religiosas, o desafio à singularidade cristológica no plano divino de salvação em meio ao pluralismo e relativismo religioso, o desafio à autenticidade da vida dos cristãos diante do ceticismo epidêmico e a alienação humana contraposta pelos relacionamentos superficiais das redes sociais virtuais são marcas da sociedade. Essa realidade “hostil”, em certo sentido, não deve desmotivar ou inibir a atividade da igreja em tais contextos. A Igreja não deve ignorar as cidades e aqueles que ali moram. Demarcar hoje os caminhos da missão pelas cidades do mundo é, na verdade, seguir as pisadas de Paulo e restaurar parte da estratégia missionária do apóstolo. Por isso, deve-se considerar que os conselhos, princípios e revelações expostos por Paulo servirão de exortação, ensino e edificação da Igreja hoje.

Segundo Gálatas, todo ensinamento deve ser testado pelo ensinamento dos apóstolos de Cristo – a própria Bíblia. O evangelho é relevante e responde aos desafios do contexto urbano. Paulo explica a importância e o relacionamento entre a lei do amor de Deus, a justificação pela graça através da fé e a obediência humana. Como consequência de uma vida autenticamente caracterizada pelo fruto do espírito, haverá um forte testemunho através da união do povo de Deus e seu relacionamento com os demais. Portanto, até mais importante do que saber utilizar os centros urbanos de hoje para a pregação da mensagem é torná-los centros de propagação do evangelho.

Roland Allen observa que Paulo era “conduzido à medida que Deus abria portas; mas para onde quer que fosse levado, sempre encontrava um centro, e ao se apropriar daquele centro ele o tornava um centro de vida cristã” [13]. Portanto, o alvo maior da carta aos gálatas não é somente corrigir a maneira de pensar sobre a salvação, mas de vivê-la. O desafio de Gálatas não se baseia em crer ou fazer, mas, acima de tudo, ser. A abordagem de Paulo busca reconstruir a identidade daquelas pessoas em Cristo, não somente para que adotassem uma nova ética, mas principalmente, um novo ethos, um novo jeito de viver – nas cidades!

Pr Marcelo Dias. Professor de Teologia Prática no UNASP. Doutorando (PHD) em Missiologia na Universidade Andrews, USA.

[1] KOONS, Jennifer. Urbanization Hasn’t Pushed Religion Aside, U.N. Says. The Washington Post. 7/7/2007. Disponível em http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/07/06/AR2007070601843.html (acessada em 29 de julho de 2013).

[2] GEORGE, Timothy. Galatians. The New American Commentary, vol. 30. Nashville, TN: Broadman & Holman Publishers, 1994, p. 23.

[3] CONN, Harvie M. e ORTIZ, Manuel. Urban Ministry. Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 2001, p. 138.

[4] KANE, J. Herbert. Christian Missions in Biblical Perspective. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1976, p. 77.

[5] MEEKS, Wayne A. The First Urban Christians—the social world of the apostle Paul, 2ª ed. New Haven, CT: Yale University Press, 2003, p. 11.

[6] The Pulpit Commentary, vol. 1, s.v. “Galatians 1:2,” CD-ROM. Rio, WI: Ages Software, 2001.

[7] George, p. 44.

[8] BOSCH, David J. Transforming Mission: Paradigm Shifts in Theology of Mission. Maryknoll, NY: Orbis, 1991, p. 124.

[9] Kane, 84.

[10] KNIGHT, George R.. Exploring Galatians and Ephesians: A Devotional Commentary. Hagerstown, MD: Review and Herald, 2005, p. 17.

[11] NICHOL, Francis D. The Seventh-day Adventist Bible Commentary. Gálatas. Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1978.

[12] Ibid.

[13] ALLEN, Roland. Missionary Methods: St. Paul’s or Ours? Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1962, p. 17.