Missão Urbana

União Central Brasileira

A emoção do Evangelismo

Roy Allan Anderson

―O QUE se sente ao pescar um peixe? O interlocutor esperava resposta, mas o pescador estava ocupado. O esporte estava bom. Peixe após peixe era içado. Alguns esplêndidos espécimes jaziam-lhe aos pés, e agora ele estava pondo isca no anzol novamente. Após lançar a linha, olhou de relance para o estranho e disse:

— Você quer saber como a gente se sente ao pescar um peixe? Bem, quando você pesca um, fica logo com vontade de pescar outro. Verdadeiramente! Este é o próprio espírito do evangelismo. Pescar outro torna-se a paixão da vida, quando o evangelista tem o espírito de verdadeiro pescador. E que emoções existem no pescar de homens!

Eu desejaria mais ser um evangelista do que um ministro de gabinete ou um milionário, declarou certa vez o estadista britânico Lord Beaverbrook, porque o evangelista é o homem que tem maior capacidade para fazer o bem‖. Esta é uma declaração impressionante, e a reflexão serena provará que não é exagerada. O evangelista tem certamente a maior oportunidade para fazer o bem pois seu trabalho é levantar os homens do mar do pecado e estabelecê-los sobre a Rocha dos Séculos. Este trabalho difícil, porém glorioso, requer tato, talento e técnica. Interessar meramente a um homem não é o suficiente. É necessário que ele seja pescado e içado.

O Chamado de Cristo aos Pescadores

Jesus passou Sua infância não longe do mar da Galiléia. Durante muito tempo observou os pescadores em sua faina diária de lançar, içar e remendar as redes, até que esta operação se tornou para Ele uma parábola de Sua própria missão neste mundo. Quando chegou o tempo de escolher e chamar os primeiros evangelistas, escolheu pescadores. Ouçam o que diz: Vinde após Mim, e Eu vos farei pescadores de homens (S. Mat. 4:19). O que Ele realmente queria dizer, era: Vinde e vivei comigo; partilhai Meus fardos e Minhas alegrias; comei comigo; palmilhai as estradas poeirentas comigo; visitai os mercados; entrai nos lares deste povo; passai a noite comigo no santuário silencioso da oração; aprendei de Mim a amar, a chorar, a vigiar e a orar; então sereis pescadores de homens. Foi um grande desafio e uma oportunidade sem paralelo. Nunca houve maior do que esta.

Pedro e André eram homens ocupados. Estavam lançando suas redes quando Jesus os chamou. Quando o Senhor quer obreiros sempre procura homens e mulheres ocupados. Leiam o relato do chamado de Eliseu, de Rebeca e de Gideão, e ainda o de muitos outros. Eram todos gente ocupada. Um grande pregador do século passado declarou que nenhum preguiçoso entraria no Reino, e que muito menos se tornaria um trabalhador, batalhando contra as águas da oposição, esforçando-se para salvar homens. Não! Pedro e André não eram aposentados nem estavam meramente procurando algo para matar o tempo. Longe disso! Eram mourejadores de mãos calejadas, sangue forte e que tinham um propósito na vida; homens que aprenderam a trabalhar sob quaisquer condições atmosféricas; homens que não contavam seu tempo por horas, mas sim pelos resultados; homens que já haviam alcançado o sucesso no campo de trabalho que haviam escolhido

Estes foram os homens que Ele chamou. E como pescadores podiam aprender mais depressa a arte de ganhar almas, porque o negócio de sua vida havia sido uma preparação inconsciente para o trabalho do evangelismo. Pescar é um ofício duro e arriscado. Naturalmente, o pescador esporádico que passa suas férias fascinado pelo anzol e pela linha, cai em uma categoria inteiramente diferente da do homem que faz da pesca o seu meio de vida.

 

Lições Tiradas de uma Aldeia de Pescadores

Muitos anos atrás, eu estava visitando de casa em casa na parte sul da Austrália, no Estado de Vitória. Ali encontrei um jovem cujo nome era Alec, e que parecia sobressair-se de modo proeminente em seu grupo. Logo formamos uma amizade agradável. Era um tipo ótimo, com bom físico e encantadora personalidade. A pequenina vila pesqueira na qual vivia parecia pertencer a outro mundo, tão quieta e repousante parecia, quando comparada à grande metrópole apenas a setenta milhas de distância. Durante todo o dia eu havia estado visitando os lares, considerando com aqueles pescadores as coisas concernentes ao reino de Deus. Era agora à noitinha e juntei-me ao meu novo amigo para um passeio pela praia. Palestramos despreocupadamente acerca de nossas respectivas ocupações, tão semelhantes — ambos pescadores, mas de espécie diferente. Logo juntaram-se a nós outros Jovens, e Alec, indubitavelmente seu líder, os apresentou como um grupo de amigos e colegas pescadores. Eram gente saudável e não sofisticada. Naqueles dias o cinema estava na infância, e naturalmente o rádio e a televisão ainda não eram sonhados.

Era uma agradável noitinha de verão, e enquanto as ondas solapavam o cais, nós palestramos e cantamos por um par de horas. Mais ou menos às dez horas, começamos a nos retirar, quando casualmente Alec observou:

—Dentro de três horas estarei lá fora, em meu barco!

—    Três horas! disse eu;

—    então será uma hora da madrugada; você começa a trabalhar no meio da noite?

— Às vezes, replicou. Como o senhor vê, as marés determinam minhas horas de trabalho. Tenho que pescar quando os peixes estão agitados.

Eu estava interessado, e desejoso de saber mais. Assim conversamos durante outra hora. Quantas coisas aprendi acerca das marés e das tempestades! Naquele ponto da costa a maré tem enchentes e vazantes fenomenais, variando entre 3 e 5 metros, de acordo com a estação. E a vida inteira de Alec era manobrada conforme este fenômeno natural. Seu trabalho não tinha feriados. Quando entrava em seu barco, não o fazia para um mero cruzeiro de prazer. Saltar do barco às três da madrugada, e então vadear por uma hora ou mais com água gelada pela cintura, enquanto a geada caía na terra, lançar uma rede sem saber quando uma arraia de ferrão, ou até mesmo um tubarão, poderia disputar o direito de passagem — não são experiências que atraiam a um covarde! Isto tudo e mais um sem-número de outras coisas igualmente não atrativas, ele havia estado fazendo dia após dia, mês após mês, durante anos, sem férias, exceto o dia de Natal. E ali estava ele continuando com sua pesada rotina, sem se queixar. De fato, parecia mesmo emocionado, pois cada dia trazia seus novos interesses e problemas peculiares.

Era uma história fascinante. Não somente me desafiou; arrancou-me de minha auto-complacência. Era tarde quando fui para o quarto, mas antes de me deitar, pensei um pouco. Estava eu disposto a manobrar minha vida conforme as marés do interesse humano? Atirar- me-ia tão voluntariamente à luta para pescar homens, como Alec e seus companheiros o faziam para pescar peixes? Sobriamente, humildemente e com nova devoção, reconsagrei-me a Deus e a Seu serviço naquela noite. Sim, a pesca é um trabalho duro; duro também é o evangelismo, mas existem compensações que sobrepujam e muito as dificuldades e os perigos da pesca de homens. É um grande momento quando recolhemos os peixes, dizia Alec com entusiasmo. Sim, é verdade. E durante muitos anos na pesca de almas, pude comprovar a veracidade de suas palavras. Contemplar uma multidão ansiosa e em expectativa; perceber que esses milhares vão ouvir a voz de Deus através de Sua Palavra; observar-lhes a fisionomia, enquanto a mensagem proclamada encontra resposta em seu coração; e então, sob a direção do Espírito de Deus, recolher a rede do evangelho e com alegria verificar que a pesca rompe a rede, e enche o barco—sim, é um grande momento! Tais coisas, entretanto, não acontecem simplesmente. Atrás das cenas está a preparação, a observação, a organização e a consagração. Muitos fatores combinam-se para produzir o sucesso evangelístico. O evangelista deve observar as marés. Deve pescar quando os peixes estão correndo. Deve planejar seu trabalho e pôr em prática o seu planejamento. E como ganhador de almas, deve estar atento às oportunidades providenciais.

A Preparação Precede o Sucesso Detalhada

A igreja bem poderia aprender uma lição do exército. Observa-se a um alto comando quando planeja uma campanha militar. As guerras se fazem com homens e com mapas. E assim, com o terreno todo estendido diante deles, o general e seus assessores reúnem-se e coordenam toda a informação disponível. Quando decidem à hora e o local do ataque, a preparação é feita nos mínimos detalhes. A observação e organização, são vitais para o sucesso. Tendo sido iniciada a campanha, há observação constante, para encontrar o menor sinal de falha na linha de defesa. Naquele ponto vulnerável, são concentradas as forças. Homens, munições e unidades mecanizadas, são postos em ação. Nada desprezado.

Por importante que seja reter as linhas, as batalhas não são ganhas meramente por conservar linhas. Napoleão costumava dizer: ―Um exército nas trincheiras já está derrotado e a melhor defensiva é uma ofensiva‖. Entretanto nenhuma ofensiva pode ter sucesso sem visão e o mais exigente preparo.

Pensem no planejamento que levou à invasão Aliada na Europa em 1945! Nada nos anais da Historia se lhe compara. Imaginem uma armada de mais de quatro mil navios carregando quinhentos mil veículos e dois milhões de homens! Adicionem a isto os vinte oleodutos estendidos como cabos sob o Canal da Mancha, e depois estendendo-se por centenas de quilômetros no continente, para suprir de gasolina a este poderoso exército mecanizado e móvel. Somente os planos navais exigiram mais de oitocentas páginas, e uma coleção completa, incluindo os mapas necessários, pesava mais de cento e quarenta quilos. Era planejamento moderno de último grau, pois as guerras nesses dias não eram mais ganhas pelos métodos das gerações antigas. O mundo andou muito desde os dias de Washington e Napoleão. E o evangelista precisa conservar-se em dia com os tempos.

 

Sinalização Rodoviária Significativa

Viajando ao longo de uma estrada no Estado de Indiana, passei por uma casa velha junto à rodovia. No jardim havia muitos artigos velhos para vender—coisas tais como rodas de fiar, aquecedores de cobre e outras quinquilharias das gerações anteriores. Não era novidade para mim já havia visto desses lugares antes. Todavia foi uma tabuleta numa árvore que chamou minha atenção. Dizia: ―Isca para pescar e antiguidades; vendem-se aqui. Deveras uma estranha combinação de negócios. Mas sugeria algo. De fato, o anúncio acabou se transformando num de meus sermões, pois eu me dirigia a um concílio de preparo de jovens ministros.

Não discuto o fato de que haja pessoas que apreciem antiguidades, mas a pesca e as antiguidades não parecem dar-se muito bem. Enquanto continuava minha viagem, fiz a mim mesmo as seguintes perguntas: Será que estou tentando pescar homens modernos, com isca antiga? Será que a igreja do Deus vivo está tentando suprir as necessidades dos apressados dias atuais, com métodos do tempo do cavalo e da carroça da geração passada? Os métodos de outras épocas são totalmente inadequados quando se enfrentam os maiores desafios da História. Estamos nós fracassando por estarmos dormindo sobre os louros de vitórias passadas? O que pode ser feito para apresentar a mensagem de Deus à altura desta grande hora?

No dia de Pentecostes, a multidão perguntava:

―Como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Atos 2:8. Isto é que dá poder a um pregador. Quando ele traz sua mensagem à altura da hora, então os homens compreenderão e responderão Eles devem ouvir o chamado de Deus de maneira que permita sua apreciação. O mundo pensa de modo diferente hoje do que há vinte anos atrás. Suas guerras mundiais não somente mudaram certas fronteiras, mas também trouxeram tremendas modificações no pensamento humano. Os homens já não vêem as coisas como se via há uma geração atrás. E se temos que apelar aos homens hoje, devemos primeiro conhecer seus pensamentos. Para alcançar os homens devemos alcançar primeiro seus pensamentos. Freqüentemente, nós pregadores, poderíamos ser acusados de haver falado virtualmente em ―língua estranha‖. Como pescadores devemos saber que isca utilizar.

Na Inglaterra, não muito longe de Londres, apareceu este anúncio:

―Vendem-se moscas-próprias para a pesca nesta localidade‖. A princípio ri-me, mas depois fiquei a refletir.

Até mesmo os peixes têm suas preferências! Peixes diferentes requerem iscas diferentes. A parábola tornava-se cada vez mais real. Era divertido, mas a lição ficou através dos anos, Os pescadores devem conhecer a isca.

Um Mundo Ferido Pela Guerra Precisa de um Evangelho de Conforto

Hoje enfrentamos um mundo espantosamente mudado. Algo desconcertante, drástico e trágico aconteceu à nossa geração. Em 1844 um preeminente educador americano, pleiteando a causa da educação compulsória, baseava seus reclamos na idéia de que a única coisa da qual necessitávamos para evitar a guerra era a educação. Homens educados jamais guerreariam, disse ele. Pobre homem! Pobre homem! Quão pouco sabia! As piores guerras vieram após o despertar da educação. Podemos todos regozijar-nos pela rapidez com que vai desaparecendo o analfabetismo, mas a tragédia que é a guerra, a guerra vermelha, sangrenta, brutal, mecanizada e universal, ainda está conosco. A educação em vez de curar o germe da guerra, somente aumenta nossos conhecimentos no sentido de construir meios mais diabólicos ainda para destruir a vida.

Em sessão especial que durou toda a noite, em 1914, o Parlamento Britânico debatia um item importantíssimo: A Inglaterra declararia ou não guerra à Alemanha? Era um momento tenso na História. Deixando a Câmara dos Comuns, Earl Grey, Secretário da Guerra, caminhava de volta ao Ministério das Relações Exteriores, enquanto os primeiros clarões anunciavam a chegada de um dia que seria lembrado durante muito tempo. Da janela de seu escritório Me podia observar um acendedor de lampiões, apagando as luzes da rua uma por uma. Cansado e abatido, o estadista virou-se para o seu auxiliar e declarou:

―As lâmpadas estão se apagando em toda a Europa, e não as veremos acesas novamente em nossa vida.‖ Estas palavras soam hoje como as de uma profecia, pois a paz ainda parece uma miragem escarnecedora. Estadistas e pacificadores vacilam ao verem seus planos serem esmagados. O que pode deter a terrível avalancha de destruição humana? Um mundo confundido por promessas não cumpridas, deprimido por esperanças estremecidas, e coberto com o espólio da desilusão, tal é o mundo que enfrentamos hoje.

E ainda assim é uma hora de grande oportunidade para o evangelismo. Porque esta mesma desilusão de nossos dias é a matéria- prima da esperança cristã. O humanismo e o otimismo, que falavam tão fluentemente acerca do inevitável progresso, e da inevitável suficiência do homem, deram lugar ao pessimismo e ao cinismo amargo. Homens e mulheres em toda parte estão procurando a realidade. Tal como nos dias de João Batista, o povo estava em expectativa e imaginava em seus corações (S. Luc. 3:15), assim hoje todos os homens em todos os lugares estão ansiosos por uma mensagem de esperança e certeza. Essas condições deram a João uma chance. Vulgaridades pias não satisfaziam suas necessidades. Ansiavam por algo real, e reconheceram a João Batista como um mensageiro enviado de Deus. Ele tinha uma mensagem clara, própria para seu tempo e para seu lugar. É uma mensagem tal como a que João trouxe à sua geração, é o que é necessário para suprir as necessidades de nossos dias. Tempos momentosos como estes, requerem ação igualmente momentosa.

Os homens precisam ter seus pensamentos desafiados. Precisam ouvir este evangelho secular, proclamado com um novo poder conquistador. As potencialidades espirituais desta hora cataclísmica, são tremendas. Sentimo-Ias? Percebemos que a maior hora do evangelismo soou, e que a oportunidade suprema da igreja está aqui? Vivemos na maior hora de nascimento da História. Foi em similar hora de nascimento que o Mestre disse:

―E necessário que Eu faça as obras dAquele que Me enviou enquanto é dia‖. S. João 9:4. É necessário que as façamos também. As conhecidas palavras de Shakespeare acerca de uma maré nos negócios humanos certamente se aplicam ao presente. Mas uma maré nos negócios de Deus, é muito maior e de alcances mais amplos. Frederico Spurr, líder da comunidade presbiteriana, conta de um pequeno londrino que até aos cinco anos, não havia visto o mar. Fascinado e atemorizado, observa o rolar das ondas. De pé, com pàzinha e balde na mão. Estava quase sem falar de admiração. É tão grande papai!‖ dizia ele. Na manhã seguinte veio correndo para a praia. Mais era maré vazante. A água estava bem longe. Abatido gritou:

―Que pena que o mar foi embora. Não podemos mais brincar nele.

Mas algumas horas mais tarde, teve uma experiência excitante. Pôde observar a enchente da maré que veio ainda mais acima do que antes. Tenso de emoção, exclamou:

—- Papai, o mar sempre volta assim depois que vai embora?

— Sim, meu filho, sempre, foi à resposta. Colegas evangelistas, a maré está subindo. Podeis ouvir o chamado de Cristo, chamando pescadores corajosos e consagrados?